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7 de março de 2018

ALGORITMO, MEUS ALUNOS DO RUYZÃO LEIAM

A Era do algoritmo chegou e seus dados são um tesouro

Fórmulas para transformar dados em informação com valor viram o grande ativo das multinacionais

San Fernando de Henares 
Sala de monitorização digital da Indra em San Fernando de Henares (Madri).
Sala de monitorização digital da Indra em San Fernando de Henares (Madri). VICTOR SAINZ
O que têm em comum as menções nas redes sociais ao turismo de Moçambique, a coleta de resíduos na cidade espanhola de Haro e a eficiência energética dos edifícios registrados no cadastro? Em princípio, nada. Mas uma visita à sala de monitorização de eventos da Indra basta para encontrar o nexo entre elementos tão díspares.
A humanidade gerou nos últimos cinco anos 90% da informação de toda a história
Aqui, nessa sala repleta de telas com luzes piscantes, um grupo de engenheiros controla 24 horas por dia, sete dias por semana, a informação que recebem de uma infinidade de processadores. Eles observam a evolução desses indicadores, e enviam suas conclusões aos clientes que contrataram seus serviços, sejam empresas privadas e administrações públicas. Esse é um excelente lugar para compreender por que os algoritmos se transformaram no segredo do sucesso de muitas grandes empresas: um segredo que lhes permite canalizar um fluxo ingente de informação para tomar decisões fundamentais para sua atividade.
Dessa sala-observatório da Indra na cidade espanhola de San Fernando de Henares, José Antonio Rubio explica que é aqui onde gigantescas quantidades de dados são transformadas em conhecimento suscetível de ser monetizado. “Os algoritmos não têm só a capacidade de explicar a realidade, mas também de antecipar comportamentos. É uma vantagem para evitar e minimizar riscos e para aproveitar oportunidades”, afirma Rubio, diretor de Soluções Digitais da Minsait, a unidade de negócio criada pela Indra para encarar a transformação digital.
Não é novidade que as empresas obtenham dados da analítica avançada para estudar características do produto que planejam lançar no mercado; o preço que se quer colocar e até decisões internas tão sensíveis como a política de retribuições aos seus funcionários. O surpreendente é a dimensão. Não é só o fato de que recentemente o número de dados em circulação tenha se multiplicado a volumes difíceis de se imaginar — calcula-se que a humanidade gerou nos últimos cinco anos 90% da informação de toda a história. Também cresceram vertiginosamente as possibilidades de interconectá-los. A palavra revolução corre de boca em boca entre acadêmicos e gestores empresariais em contato com o florescente negócio dos algoritmos e o chamado big data.
“O desafio agora é transformar esses dados em valor”, diz o BBVA
“A primeira revolução chegou há alguns anos, com o armazenamento de imensas quantidades de dados procedentes das pegadas eletrônicas que todos nós deixamos. A segunda, na qual estamos imersos, vem da capacidade que tanto os empresários como os usuários e pesquisadores têm de analisar esses dados. Essa segunda revolução procede dos algoritmos supercapazes e do que alguns chamam de inteligência artificial — mas que eu prefiro denominar de superespecialistas”, explica Esteban Moro, professor da Universidade Carlos III de Madri e do MediaLab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), de Boston.

Segunda revolução

José Antonio Rubio, diretor de Soluções Digitais na Minsait.
José Antonio Rubio, diretor de Soluções Digitais na Minsait. 
Essa segunda revolução conta com a ajuda de cada uma das milhões de pessoas que todo dia entregam seus dados de forma gratuita e contínua, seja publicando uma foto no Facebook, comprando com cartão de crédito ou passando pelas roletas do metrô com um cartão magnético.
Na esteira de gigantes como Facebook e Google, que baseiam seu enorme poder na combinação de dados e algoritmos, cada vez mais empresas investem quantidades crescentes de dinheiro em tudo o que se relaciona com big data. É o caso do BBVA, que aposta tanto em projetos invisíveis para clientes — como os motores que permitem processar mais informações para analisar as necessidades dos usuários — como em iniciativas facilmente identificáveis, entre elas a que permite que os clientes do banco possam prever a situação de suas finanças no final do mês.
A segurança cibernética já é a maior preocupação dos investidores
“Faz décadas que o setor financeiro usa modelos matemáticos. Nos anos setenta, o cliente de um banco vinha definido por muito poucos atributos, como lugar de residência, idade, profissão e renda. Hoje, contudo, ele deixa uma pegada digital muito profunda que nos ajuda a conhecê-lo para personalizar nossa oferta de serviços e minimizar os riscos. A novidade é a profundidade dos dados e a capacidade analítica”, afirma Juan Murillo, responsável pela divulgação analítica do BBVA. “O grande desafio agora é ver como todos esses dados se transformam em valor, não só para a empresa, mas também para os nossos clientes e a sociedade.”
As amplíssimas possibilidades oferecidas pelos algoritmos não estão livres de risco. Os perigos são muitos: vão da segurança cibernética — para fazer frente aos hackers e ao roubo de fórmulas — até a privacidade dos usuários, passando pelos possíveis vieses das máquinas.
De fato, um recente estudo da Universidade Carlos III concluiu que o Facebook controla, para uso publicitário, dados sensíveis de 25% dos cidadãos europeus, que são categorizados na rede social em função de assuntos tão privados quanto sua ideologia política, orientação sexual, religião, etnia e saúde. A Agência Espanhola de Proteção de Dados já impôs em setembro uma multa de 1,2 milhão de euros (4,8 milhões de reais) à rede social de Mark Zuckerberg por usar informações sem autorização.
A segurança cibernética, por sua vez, transformou-se na principal preocupação dos investidores do mundo todo: 41% se disseram “extremamente preocupados” com esse assunto, segundo a pesquisa Global Investors Survey de 2018, publicada nesta semana pela PwC. “Um problema dos algoritmos é que carecem de contexto. Podem fazer maravilhosamente bem uma tarefa, mas, se você os tirar dessa atividade, vão falhar de maneira estrepitosa. Uma empresa que realizar uma fusão com outra terá que aprender a treinar de novo os algoritmos da companhia que absorver. Para isso, é preciso saber como eles foram criados”, afirma Moro, o especialista do MIT.
De volta à sala de monitorização da Indra, Rubio destaca as diversas utilidades que oferece aos clientes. Por motivos de confidencialidade, ele não pode falar das dezenas de empresas às quais fornece informação. Por isso, cita exemplos um tanto exóticos, como o turismo em Moçambique e os resíduos de Haro. Quando termina, a pergunta gira em torno da possibilidade de que os algoritmos tenham se transformado no tesouro mais valioso das empresas. “Definitivamente, sim”, responde, sem hesitar.
E os riscos? As máquinas assumirão o lugar dos humanos? “Isso é algo que preocupa. Tudo o que não conhecemos gera desconfiança. Mas a tecnologia nos permite limitar os riscos e aproximar as indústrias digitais das pessoas. O risco é inerente ao ser humano, não às tecnologias”, conclui Rubio.

O RISCO DO VIÉS DAS MÁQUINAS

Ao ser questionada sobre a diferença salarial entre homens e mulheres, Fuencisla Clemares, diretora geral do Google Espanha, disse que sua empresa não sabe o que é isso. Lá, um algoritmo cego às questões de gênero propõe quanto cada um deve receber. A frieza da matemática pode conseguir decisões mais objetivas e livres de preconceitos. Ok, mas e se as máquinas tiverem seu próprio viés? E se este for ainda mais invisível que o dos humanos?
Um recente artigo do Financial Times mostrou como, numa empresa norte-americana de atendimento por telefone, a valorização do trabalho dos funcionários tinha passado dos humanos para as máquinas. Estas davam uma nota mais baixa para aqueles que tinham forte sotaque, já que às vezes não podiam entender o que eles diziam. Exemplos como esse revelam o risco crescente de que os algoritmos despontem como os novos juízes de um tribunal supremo e inapelável.
Esteban Moro, pesquisador da Universidade Carlos III e do MIT, resume o debate numa única palavra: escala. “O problema não é que os algoritmos tenham preconceito, pois os humanos também têm. O problema é que essas fórmulas matemáticas possam afetar centenas de milhares de pessoas e tomar decisões com efeitos muito maiores que o das sentenças de um juiz”, explica. Assim, uma pessoa que procura emprego pode se livrar da tirania dos gostos ou preconceitos do diretor de recursos humanos dessa ou daquela empresa. Mas, em compensação, enfrenta os critérios compartilhados pelos grandes portais de ofertas de trabalho. O monstro se agiganta.
Juan Grancisco Gago, diretor de Práticas Digitais da Minsait, unidade de negócios da Indra, admite: na medida em que os algoritmos acabam tomando decisões, podem gerar problemas morais. Ele cita o exemplo de um aparelho de inteligência artificial capaz de fazer detecções de câncer. “Talvez com mais precisão que um oncologista humano”, pondera. “Mas, no final, a responsabilidade não pode estar numa máquina, e sim nos indivíduos que a programam. É preciso estabelecer um marco regulatório para esses casos”, diz o diretor da Indra.
O Regulamento Geral de Proteção de Dados, que entrará em vigor em maio na União Europeia, determina que os cidadãos europeus não devem ser submetidos a decisões “baseadas unicamente no processo de dados automáticos”, com uma menção expressa às “práticas de contratação digital sem intervenção humana”.
A equipe de Moro desenvolve no MIT um projeto de engenharia reversa, a fim de analisar como trabalham os algoritmos de gigantes como o Google e o Facebook. A ideia é fazer experimentos com pessoas que introduzem diversas informações nas redes, para depois ver como essas empresas reagem. Trata-se, no fundo, de tentar domar a fera e ver se é possível saber como funcionam as fórmulas matemáticas que têm um impacto em nossas vidas. Um impacto que, ninguém duvida, só crescerá nos próximos anos.

5 de março de 2018

RETOMANDO - MODAS DE LINGUAGEM

Vamos nos deter mais um pouco nesse assunto hoje.
Citei os meios de comunicação como uma das fontes de expressões problemáticas, pois se elas são lidas ou ouvidas provindas de jornalistas, apresentadores ou entrevistados na TV, os leitores/espectadores ficam com a certeza de que são adequadas e seu uso vai sendo disseminado.
Selecionamos mais algumas expressões que empobrecem o texto, porque são impróprias, ou porque o significado não é aquele que o falante tinha em mente ou ainda por terem sido empregadas em construções inadequadas:
  • Por conta = por causa
O modismo dessa expressão atinge o emprego de preposições simples e curtas – como com, contra, por e de – resultando no que um cronista chamou de “enrolação palavrosa” ou no popular neologismo embromation. Veja alguns casos em que a linguagem deveria se pautar pelo simples:
  • Corintianos fazem piada por conta da derrota do Palmeiras (com);
  • Fulana está deprimida por conta de separação (com);
  • Moradores protestam por conta da situação das ruas do bairro (contra);
  • O escritor foi processado por conta de plágio” (por);
  • Ele morreu por conta de câncer (de).
Nos casos acima, as construções ficariam mais claras, concisas e objetivas, se tivessem sido empregadas as preposições dos parênteses.
  • Repercutir
O dicionário Michaellis traz, para esse verbo1, o sentido de ressoar, refletir-se, causar impressão generalizada ou afetar algo. Assim, devemos dizer que O acontecimento repercutiu no cenário mundial ou O som dos tambores repercutiu no Pelourinho. Não se pode empregar como alguns jornalistas tem feito: A imprensa mundial repercutiu a notícia. O ideal é dizer que a notícia repercutiu ou que a imprensa mundial divulgou a notícia.
  • Sazonalmente = ocasionalmente
Certa vez um ministro deu a seguinte declaração: “Um avião não é feito para cair, mas ele sazonalmente cai. O que não se pode dizer é que ele todo ano tem que cair. Assim é o sistema elétrico brasileiro.” (Edison Lobão – Ministro das Minas e Energia 2011-2014)
O adjetivo sazonal é derivado do latim sationis, que significa “estação do ano” e, por extensão, “tempo próprio para a colheita”. E estendendo ainda mais um pouco seu significado, passou a caracterizar tudo aquilo que ocorre em ciclos, regularmente, como as estações que estão na origem do termo, como as safras e fluxos turísticos em cidades litorâneas, por exemplo. Já a queda de aviões não é previsível, nem cíclica! E não tem nenhuma característica que permita que seja comparada a apagões de energia elétrica (que não deveriam ocorrer e muito menos ciclicamente, embora tenha relação com as características climáticas e essas, sim, estão ligadas às estações do ano.
O assunto não se encerra por aqui, pois há muita gente ‘jogando contra’ a boa qualidade dos textos, mas vamos vendo os casos em doses homeopáticas, para dar tempo de serem devidamente ‘digeridos’ pelo leitor e incorporados nos seus hábitos linguísticos.

2 de março de 2018

ENEM E A REDAÇÃO, LEIAM ISSO, GURIZADA !!!!

Ah, meu filho terá de fazer cursinho neste ano! Ele não passou em nenhuma seleção do Sisu (Sistema de Seleção Unificada) porque zerou a redação… Ao invés de ele escrever sobre surdos, ele escreveu sobre cegos! Ele fez a redação por último no dia… Falei para ele fazer primeiro a redação, com a cabeça fresca… Daí quando ele me mostrou o rascunho em casa e eu li, mostrei para ele o que ele tinha feito e ele chorou feito criança. Falou que escreveu o texto em menos de quarenta minutos para dar tempo de entregar.
Este é o relato real de uma professora de música cujo filho prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2017) e teve a redação anulada porque não cumpriu o tema da proposta. O garoto, aos dezessete anos, recém-saído do Ensino Médio, talvez não estava preparado, inclusive emocionalmente, para uma maratona de provas como é o Enem.
Infelizmente, este relato não é incomum. Todos os anos, o principal motivo de anulação de uma redação no Enem é o não cumprimento do tema, ou seja, a fuga do tema. Só na última edição, receberam nota zero 309.157 textos e a maioria foi devido a fuga do tema proposto e muitos participantes cometeram o mesmo erro do filho da professora de música: escreveram sobre os desafios da formação escolar dos deficientes visuais e não dos deficientes auditivos.
Sem dúvida, isto se deve ao fato de haver menção ao Braile na coletânea de textos motivadores da proposta de redação do Enem 2017, ao lado da menção à Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Neste caso, temos uma mistura perigosa: problemas em interpretação de texto somados à pressa, ansiedade, falta de controle do tempo e desatenção devido ao cansaço físico e mental.
O participante em questão poderia ter feito a redação logo no início e ter tirado uma boa nota? Sim. Ele poderia ter feito o texto primeiro e ter tirado uma nota ruim? Sim também. Ele poderia ter feito a redação depois de responder as questões e ter tirado uma nota acima da média? Sem dúvidas.
O caso não é determinar se a redação deve ser feita por primeiro ou por último, já que cada participante tem seus costumes ao fazer uma prova de mais de uma disciplina; a questão é quanto de atenção e de disposição ele tem para se dedicar à redação. Como o Enem é um exame longo, praticamente uma prova de resistência física, algo sairá prejudicado, mas esse prejuízo deve ser o menor possível.
Além disso, também é muito comum o participante ter sua redação anulada por ter copiado trechos da coletânea de textos motivadores, o que é proibido pelo edital do Enem.
Textos com menos de sete linhas são considerados insuficientes pela banca corretora, até porque em sete linhas é impossível escrever uma dissertação-argumentativa coerente, coesa e com progressão temática. Também não é possível redigir uma dissertação-argumentativa sem conhecer sua estrutura, o que caracteriza não cumprimento do tipo textual, razão também para anulação.
Segundo a revista Exame, na edição de 2014 do Enem, os principais motivos de anulação da redação foram os seguintes:
Naquela época, o desrespeito aos Direitos Humanos ainda era um critério para anulação dos textos, descritor derrubado em 2017 pelo Supremo Tribunal Federal. Agora, até segunda ordem, as redações que ferirem os Direitos Humanos terão prejuízo de nota na quinta competência, apenas.
Dos motivos listados pela revista, consideramos que três deles são fáceis de ser contornados: cópia dos textos motivadores, texto insuficiente e parte desconectada (proposital ou não). Basta escrever mais de sete linhas (a folha de redação do Enem tem trinta linhas), sem copiar nada dos trechos motivadores e sem escrever partes desconectadas, o que culmina em um texto coeso e coerente

1 de março de 2018

TEMA DE REDAÇÃO

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “A questão do aborto no Brasil”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

TEXTO I

A segunda edição da Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), realizada em 2016 pelo Anis Instituto de Bioética e pela Universidade de Brasília (UnB), aponta que 20% das mulheres terão feito ao menos um aborto ilegal ao final da vida reprodutiva, ou seja, uma em cada cinco mulheres aos 40 anos terá abortado ao menos uma vez. De acordo com os dados, em 2015, 417 mil mulheres nas áreas urbanas do Brasil interromperam a gravidez, número que sobe para 503 mil se for incluída a zona rural. O tema volta ao debate depois que uma nova ação chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação, em qualquer situação.
Segundo a pesquisa, a mulher que aborta tem entre 18 e 39 anos, é alfabetizada, de área urbana e de todas as classes socioeconômicas, sendo que a maior parte (48%) completou o ensino fundamental e 26% tinham ensino superior. Do total, 67% já tinha filhos. A pesquisa aponta ainda que a religião professada não é impeditivo para o ato, pois 56% dos casos registrados foram praticados por católicas e 25% por protestantes ou evangélicas.

“HÁ TANTO ABORTO NO BRASIL QUE É POSSÍVEL DIZER QUE EM PRATICAMENTE TODAS AS FAMÍLIAS DO PAÍS ALGUÉM JÁ FEZ UM ABORTO – UMA AVÓ, TIA, PRIMA, MÃE, IRMÃ OU FILHA, AINDA QUE EM SEGREDO. TODOS CONHECEMOS UMA MULHER QUE JÁ FEZ ABORTO”, CONCLUI O LEVANTAMENTO, QUE TRATA O TEMA COMO SAÚDE PÚBLICA.

A publicação do Ministério da Saúde” 20 anos de Pesquisa Sobre Aborto do Brasil”, de 2009, também traça um perfil de quem interrompe a gravidez no país. Segundo a pesquisa, são “predominantemente mulheres entre 20 e 29 anos, em união estável, com até oito anos de estudo, trabalhadoras, católicas, com pelo menos um filho e usuárias de métodos contraceptivos, as quais abortam com misoprostol [remédio abortivo popularmente conhecido como Cytotec]”.

TEXTO II

Falar sobre aborto costuma gerar polêmica, mas os números que circundam essa prática tornam o debate inevitável. Segundo a OMS, 22 milhões de abortos ocorrem por ano em locais insalubres e sem a estrutura adequada. Estima-se, ainda, que 47 mil mulheres morram todos os anos por complicações decorrentes do procedimento.
Grupos defensores de direitos das mulheres defendem que, se a prática fosse descriminalizada, tanto a mulher gestante que decide interromper a gravidez como o terceiro que realiza o procedimento, deixariam de ser penalizados por isso. Algo que traria maior segurança jurídica para os envolvidos.
Já a legalização seria um passo adiante: estabelecer regras para regulamentar a prática, oferecendo estrutura para que o aborto ocorresse de forma segura, sem risco de vida para a gestante.
Para a antropóloga Debora Diniz, da Universidade de Brasília, a discussão em torno do tema deve frisar que a sua legalização não é sinônimo de banalização. “As mulheres devem saber que recorrer à prática é só em último caso e que elas devem continuar a utilizar preservativos”,.

TEMA DE REDAÇÃO

TEXTO I

Na obra De la division du travail social, publicada em 1893, Durkheim enfoca, de forma contraposta, duas maneiras de articulação do liame social: a “solidariedade mecânica” e a “solidariedade orgânica”.11 O contraste entre essas duas formas de solidariedade social serve a Durkheim como mecanismo de solução à questão de como se operam as relações entre indivíduo e sociedade. Assim, o problema fundamental de sua abordagem, nessa obra, consiste em explicar como o indivíduo, mesmo se tornando mais autônomo, mostra-se mais estreitamente dependente da sociedade. Aliás, é por essa razão que Raymond Aron, sublinha que o tema fundamental desse livro de Durkheim consistiria no exame das relações entre indivíduos e sociedade.
Segundo Durkheim, a solidariedade mecânica corresponderia a sociedades ditas segmentárias, nas quais os indivíduos seriam semelhantes no que concerne à partilha dos elementos constitutivos da consciência comum. Em tais sociedades não haveria nem especialização de funções nem de indivíduos os quais se encontrariam amalgamados nos grupos por eles compostos. Sem entrar na discussão relativa ao “evolucionismo” na obra de Durkheim, cabe notar que tais sociedades seriam cronologicamente as primeiras. Por outro lado, a solidariedade orgânica corresponderia a sociedades caracterizadas pela diferenciação funcional, nas quais haveria uma divisão de funções e de indivíduos e a formação de subgrupos especializados que reforçariam a individualização, fazendo com que os indivíduos sejam considerados como fonte autônoma de pensamento e ação. Trata-se, portanto, de dois sistemas distintos de relações sociais.
Ao contrastar essas duas formas de solidariedade, Durkheim enfatiza, sobretudo, os seguintes aspectos: a) enquanto na solidariedade mecânica a relação entre indivíduo e sociedade ocorre sem que haja nenhuma intermediação, na solidariedade orgânica tal relação é intermediada ela pertença a grupos especializados; b) enquanto na solidariedade mecânica a sociedade é vista como um conjunto mais ou menos organizado de crenças e sentimentos comuns a todos os membros do grupo, nas sociedades em que vige a solidariedade orgânica verifica-se a presença de um sistema de funções diferentes e especializadas unidas por relações definidas; c) a intensidade da solidariedade mecânica é inversamente proporcional à da personalidade individual, ou seja, atinge seu apogeu quando a consciência coletiva recobre exatamente nossa consciência total e coincide em todos os pontos com ela. Contrariamente, a solidariedade orgânica, produzida pela divisão do trabalho social, pressupõe a personalidade e a esfera de ação própria dos indivíduos. Assim, é preciso que a consciência individual não fique integralmente recoberta pela consciência coletiva.

TEXTO II

Na China, um cidadão afirma “sou rico porque tenho muitos amigos”, enquanto um etíope questiona: “se não tivermos amigos, como podemos sobreviver sozinhos?”. Com essas mensagens de desconhecidos de todo o mundo, a ONU comemora nesta quarta-feira (30) o Dia Internacional da Amizade e lembra da importância da solidariedade humana especialmente nesse momento de tanta violência e conflitos.

LANÇANDO UM APELO DE SOLIDARIEDADE MUNDIAL, O SECRETÁRIO-GERAL DA ONU BAN KI-MOON FRISOU QUE O DIA INTERNACIONAL DA AMIZADE EM 2018 RECOBRA UMA IMPORTÂNCIA ESPECIAL NESTE MOMENTO DE DESCONFIANÇAS, VIOLÊNCIA E GUERRAS GENERALIZADAS EM MUITAS PARTES DO MUNDO.

“Seja qual for a causa, e por mais forte que sejam as forças de animosidade e violência armada, o espírito humano é potencialmente muito mais forte. É o nosso dever solene fazer com que ele prevaleça”, disse Ban.
O chefe da ONU concluiu lembrando que nestes tempos difíceis e imprevisíveis é “vital estender a mão para o outro de forma a prevenir o conflito e construir bases de longo prazo para uma paz duradoura” e recordar os “laços que nos unem, independente da raça, religião, gênero, orientação sexual ou fronteiras.”
Em maio de 2011, a Assembleia Geral da ONU adotou de forma unanime a resolução designando o dia 30 de julho como o Dia Internacional da Amizade, em reconhecimento ao potencial da amizade para construir aos esforços da comunidade mundial de promover o diálogo entre as civilizações, o entendimento mútuo e a reconciliação.
O conceito de amizade é um dos princípios fundadores da Família ONU, incluído na Carta das Nações Unidas que proclama que um dos propósitos da Organização é “desenvolver relações amistosas entre as nações”.

TENDO EM CONTA AS IDEIAS DOS TEXTOS, ALÉM DE OUTRAS INFORMAÇÕES QUE JULGUE RELEVANTES, REDIJA UMA DISSERTAÇÃO EM PROSA,  NA QUAL VOCÊ EXPONHA SEU PONTO DE VISTA SOBRE O TEMA “SOLIDARIEDADE ENTRE POVOS”.

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TEMA DE REDAÇÃO

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “Obstáculos para a doação de sangue no Brasil”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

TEXTO I

Se Marcel Proust, Alan Turing, Andy Warhol, Kevin Spacey, Mario de Andrade, Marco Nanini ou Elton John fossem doar sangue em um hemocentro brasileiro, eles seriam barrados pelo mesmo motivo: manter relações sexuais com homens. No Brasil, homens homossexuais só podem fazer doação sanguínea se passarem um ano sem transar com outro homem.
A restrição representa um desfalque considerável nos estoques de sangue. Em 2014, apenas 1,8% da população brasileira doou 3,7 milhões de bolsas. É bastante sangue, mas é pouca gente – ideal da ONU é que 3 a 5% da população de uma nação seja doadora. Mas só conseguiríamos chegar nesse ideal de 3% se o número de brasileiros que vão regularmente aos hemocentros dobrasse. Ainda é pouco.
E tem muita gente que quer engordar essa pequena parcela de voluntários. De acordo com o IBGE, 101 milhões de homens vivem no país e, do total, 10,5 milhões é homo ou bissexual. Levando em consideração que cada homem pode doar até quatro vezes em um ano, com a restrição dessa parcela da população, são desperdiçados 18,9 milhões de litros de sangue por ano.
Para o Ministério da Saúde, os 12 meses de abstinência sexual fazem parte de um conjunto de regras sanitárias para proteger quem vai receber a transfusão de possíveis infecções – até 2004, homens que fazem sexo com homens (HSH) eram proibidos de doar sangue. A Portaria nº 2712, de 12 de novembro de 2013, segue a recomendação da Organização Mundial da Saúde(OMS) e da Organização Pan-Americana de Saúde(OPAS) sobre a restrição de HSH, de que todas as amostras de sangue sejam analisadas e de que os doadores sejam de baixo risco. O Ministério e a Anvisa afirmam que orientação sexual não deve ser usada como critério para seleção de doadores e que as regras não são discriminatórias. Mas a realidade dos hemocentros não é bem assim.

TEXTO II

A COMPRA DO SANGUE PODERIA SER UMA ALTERNATIVA PARA RESOLVER A QUESTÃO DA FALTA DE DOAÇÕES?

Há muitos anos, no Brasil, a pessoa da qual se coletava o sangue recebia uma quantia em dinheiro. Vários problemas ocorriam, entre eles: algumas pessoas faziam disso um meio de vida, colocando, pelo número de coletas, sua própria saúde em risco. Outras pessoas colhiam sangue e não respondiam a verdade para não deixarem de receber o dinheiro. Tal comportamento colocava em risco a saúde e a vida dos pacientes que recebiam o sangue, uma vez que, mesmo realizando todos os exames, é possível a transmissão de doenças que tenham sido adquiridas recentemente em virtude da chamada janela imunológica. Para reduzir estes riscos, o Ministério da Saúde iniciou um programa de qualidade do sangue, PROIBINDO EXPRESSAMENTE a remuneração do sangue colhido. A condição de voluntário para aquele que doa seu sangue abre as portas para a tranquilidade do doador quanto à preservação da sua saúde e para sua responsabilidade e seu compromisso com as outras pessoas. A partir dessa iniciativa, a hemoterapia, principalmente no que se refere à segurança transfusional, melhorou muito. Hoje, o Brasil, com destaque para Minas Gerais, pode se orgulhar em ter uma das melhores hemoterapias do mundo, com segurança para o doador e para o paciente. Outras informações podem ser obtidas no site da Anvis

TEMA DE REDAÇÃO

Você já deve ter ouvido, mesmo que à boca miúda: se alguém tem uma conduta reprovável, é porque não aprendeu bons valores em casa.

ÉTICA, RESPEITO E HONESTIDADE SÃO QUALIDADES ENALTECIDAS E ALVO DE PREOCUPAÇÃO DE PAIS E ESCOLAS, MAS DESVIOS SÃO TÃO FREQUENTES QUE LEVAM À PERGUNTA: É POSSÍVEL ENSINAR PRINCÍPIOS A OUTRA PESSOA?

O economista e ensaísta Eduardo Giannetti compara a assimilação de valores ao aprendizado da linguagem. É difícil dizer quem nos ensinou a falar, mas ninguém nasceu sabendo e todos aprenderam.
“Valores éticos são uma espécie de gramática da convivência. Sem a gramática, não há língua, do mesmo modo como a virtude dá o estilo do convívio”, diz Giannetti.
Ele lembra o diálogo entre Platão e Protágoras, no qual esse último argumenta que a consciência e a noção de justiça são traços conquistados a duras penas pela humanidade, que devem ser reaprendidos a cada geração; o ensino começa no colo das mães, passa pela escola e continua por toda a vida em comunidade, com a ajuda da punição dos transgressores.
O educador Mario Sergio Cortella aponta a exemplaridade como melhor maneira de ensinar ética. “É claro que valores podem ser transmitidos pelos pais, mas não com a automaticidade que alguns desejam. Até porque parte da força de uma nova geração vem da oposição à anterior.”
Giannetti afirma que a adesão às normas depende de internalização: é preciso entender por si mesmo que a regra é importante para a vida em sociedade, e não ser coagido por castigos ou vergonha.
“Passa por uma educação formal, que ajude a entender a existência de normas não para tolher pessoas, mas permitir que compartilhem o espaço de forma harmoniosa.”
Luciene Tognetta, da Unesp, coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral, que reúne membros de várias universidades atentos ao ensino da ética nas escolas. Pesquisa do grupo analisou projetos de educação moral de 1.100 escolas públicas e considerou só 2% completos, já que a maioria se resumia em preleções verbais, tarefas e iniciativas isoladas de professores.
No aconselhamento que o grupo promove em colégios, a instrução é criar um ambiente que estimule a autonomia e a autorregulação. “O professor deve dar às crianças condições de resolver problemas pela conversa, deixar que, num conflito, saiam de seu ponto de vista e percebam o do outro. Só assim se desenvolve a autonomia do dever moral”, diz a professora.
O colégio Bandeirantes, de São Paulo, dá curso de formação em ética para professores e funcionários e, nas salas de aula, mantém a disciplina Convivência em Processo de Grupo, que ocupa uma hora por semana do sexto ano ao fim do ensino médio, apresentando dilemas morais.
“A ideia é, sem mencionar a palavra ética ou moral, permitir que problemas relacionados apareçam naturalmente”, diz a coordenadora, Maria Estela Zanini.
Também para Giselle Magnossão, diretora do Albert Sabin, o ambiente é mais importante do que a aula expositiva para o estímulo da ética. No currículo, há momentos em que alunos são convidados a sustentar posições. “Não é preleção sobre respeito, mas um debate em que o aluno reflete e argumenta.”
É possível expandir para toda a comunidade a noção de que o ambiente é peça-chave na formação da moral.
Mesmo rechaçando a máxima de que o homem é produto do meio, Cortella diz que a conduta resulta em boa parte do
sistema de valores vigente, a que a pessoa adere “para não se sentir excluída”.
Microcosmos como o trânsito oferecem tubos de ensaio, afirma Giannetti. “Se você pegar um motorista carioca e levar a Zurique, em pouco tempo ele estará dirigindo como o suíço, e vice-versa”.
Mas o contrato social que rege a vida é mais quebradiço do que se pensa. Na Nova York de 1977, bastou um apagão de pouco mais de 24 horas, entre 13 e 14 de julho, para haver explosão no número de crimes: 1.600 lojas danificadas e mil incêndios foram reportados, levando a mais de 3.000 detenções.
Não é preciso ir tão longe em tempo e espaço: todo brasileiro deve se lembrar da greve de policiais militares no Espírito Santo, em fevereiro, que deixou 198 mortos em três semanas.
“Mesmo em sociedades avançadas, quando há o colapso da dimensão da submissão, rapidamente descamba-se para uma situação de guerra de todos contra todos”, afirma Giannetti. “E você percebe como é frágil esse acordo da ética cívica.”

TEXTO II

A SENSAÇÃO QUE SE TEM É QUE O BRASIL VIVE UMA CRISE ÉTICA E, NESSAS HORAS, SEMPRE SURGE A PROPOSTA DE AMPLIAR AS AULAS DE ÉTICA NAS ESCOLAS. MAS SERÁ QUE EXISTE UMA CORRELAÇÃO ENTRE ESTUDAR ÉTICA E SER ÉTICO?

O filósofo Eric Schwitzgebel, da Universidade da Califórnia, Riverside, tentou medir isso. Perguntou a professores de ética, isto é, gente que ganha a vida ensinando os outros sobre o que é certo e o que é errado, com que frequência votavam, ligavam para suas mães, respondiam a e-mails de alunos, comiam carne, doavam sangue, contribuíam para associações de caridade etc. e comparou suas respostas com as dadas por filósofos de outras especialidades e professores de outros cursos.
Schwitzgebel também foi aos arquivos para ver se os eticistas relutaram mais do que colegas de outras áreas em aderir ao nazismo ou se eles roubavam menos livros das bibliotecas. Os resultados, como o leitor já deve suspeitar, indicam que não há diferenças importantes nos comportamentos dos diversos professores.
Duas exceções são os livros —as chances de títulos de ética desaparecerem das estantes são 50% maiores do que os de outras matérias— e o abate de animais para consumo humano: 60% dos eticistas o condenaram, contra 19% dos professores de outras áreas. A diferença, contudo, despareceu quando se mediu a frequência com que comem carne: 38% dos professores haviam jantado um mamífero na noite anterior, contra 37% dos eticistas. Como dizia Terêncio, “sou humano e nada do que é humano me é estranho”.

TENDO EM CONTA AS IDEIAS DOS TEXTOS, ALÉM DE OUTRAS INFORMAÇÕES QUE JULGUE RELEVANTES, REDIJA UMA DISSERTAÇÃO EM PROSA, NA QUAL VOCÊ EXPONHA SEU PONTO DE VISTA SOBRE O TEMA “ÉTICA NO SÉCULO XXI”

TEMA DE REDAÇÃO

TEMA DE REDAÇÃO: DESAFIOS PARA REDUZIR OS CASOS DE ASSÉDIO SEXUAL

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “Desafios para reduzir os casos de assédio sexual”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

TEXTO I

“O assédio sexual contra a mulher é um tipo de violência tão banalizada que é possível citar vários casos durante um único dia. Homens se sentem livres para nos ofender com palavras sexualizadas de baixo calão na rua, manifestam cenas em que seguram genitais e chegam até a tocar nossos corpos sem consentimento em transporte público, na rua ou no trabalho”, explica Carol Lopes, militante do Coletivo de Mulheres Ana Montenegro, movimento feminista que se propõe a conscientizar mulheres sobre temas diversos.
[…]

ASSÉDIO EM LOCAIS PÚBLICOS E A VONTADE DAS MULHERES

Idealizada pelas jornalistas Juliana de Faria e Karin Hueck, a campanha “Chega de Fiu Fiu”, que visa combater o assédio sexual em espaços públicos, realizou uma pesquisa que revelou que 85% das pesquisadas já tiveram seu corpo tocado sem permissão no espaço público. Além disso, 83% das mulheres consultadas declararam que não gostam de receber cantada na rua. O resultado contraria a ideia de que as mulheres gostam de receber elogios no espaço público proferidos por desconhecidos, argumento que, inclusive, neutraliza o assédio.
“É, sim, violência contra a mulher, independentemente do que digam os perpetuadores dessa prática. É impossível dissociar a ação desses indivíduos das demais agressões físicas e psicológicas das quais as mulheres são vítimas. São todas partem de um mesmo desprezo pelos direitos do próximo. É crime. Sempre que existe interação sexual não consensual é crime, e eles têm de ser individualmente responsabilizados por isso”, defende Aparecida Gonçalves, secretária nacional de enfrentamento à violência da Secretaria de Políticas para as Mulheres, do Governo Federal, em entrevista ao site Rede Brasil Atual

TEXTO II

ABUSOS SEXUAIS NO MUNDO DO CINEMA: QUAIS AS CHANCES DE UMA VERDADEIRA MUDANÇA?

Postado por Susy Freitas | nov 21, 2017 | O Segundo Sexo
O produtor Harvey Weinstein foi basicamente escorraçado da própria produtora, denunciado por uma lista de mulheres do calibre de Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow e expulso da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e da Guilda de Produtores da América. Tudo graças aos casos de assédio sexual e estupro que remontam há décadas finalmente vindo à tona desde outubro. A polícia de Nova York já tem uma investigação em curso a partir de tantas denúncias, e a chance dele ir para a cadeia é real.
Mesmo com essa ficha, uma grande interrogação pairou na cabeça de que acompanha mais de perto as notícias do mundo do cinema quando as denúncias contra Weinstein tomaram uma proporção gigantesca: quantos mais vão cair em desgraça como o magnata? Ou melhor, alguém de fato vai cair? Afinal de contas, burburinhos e fofocas sobre relações de poder nada corretas na indústria cinematográfica nunca foram novidade.
O efeito dominó, porém, mostrou-se plausível em 2017. Num movimento praticamente sem precedentes, começamos a ver outros casos de toda sorte de homens do ramo sendo acusados de algum tipo de abuso, com as vítimas finalmente sendo ouvidas e as mulheres perdendo o medo de denunciar que o assédio moral e sexual em Hollywood não é novidade e nem exclusividade do caso Weinstein.
Os diretores Oliver Stone, Brett Ratner, Lars Von Trier e Giuseppe Tornatore; os atores Kevin Spacey, Ben Affleck, Dustin Hoffman, Danny Masterson, Jeffrey Tambor e Steven Seagal; e o agente Adam Venit são alguns dos que sofreram os efeitos da promessa de uma nova direção à maneira como a indústria hollywoodiana encara o assédio às profissionais mulheres pós-caso Weinstein. E a lista só aumenta.
[…]
As denúncias, aliadas a um front cada vez maior de mulheres, parece apontar para uma perspectiva de mudanças nas condições de trabalho delas em Hollywood e para além do mundo do cinema também. No domingo (12), centenas de pessoas marcharam no distrito de Los Angeles contra o tratamento indigno às mulheres, seguindo um trajeto que seguia do Hollywood Boulevard e Highland Avenue, passando pela Calçada da Fama e chegando aos escritórios da CNN. Intitulada #MeToo, a marcha se posicionou a favor das vítimas de abuso sexual e contra a cultura permissiva de assédio às mulheres.

25 de fevereiro de 2018

NORMATIVA OU DESCRITIVA?


Na escola, estudamos gramática. Não é comum ouvirmos falar em “gramáticas”, mas a verdade é que existe, sim, mais do que uma! Já ouviu falar em gramática normativa e gramática descritiva? Vamos ver quem são elas e quais as diferenças que as caracterizam.
Antes, confira um trecho da obra Sítio do Picapau Amarelo, do Monteiro Lobato, para introduzir tal discussão.
“Pilhei a senhora num erro!”, gritou Narizinho. “A senhora disse: ‘Deixe estar que já te curo!’ Começou com o Você e acabou com o Tu, coisa que os gramáticos não admitem. O ‘te’ é do ‘Tu’, não é do ‘Você'”…
“E como queria que eu dissesse, minha filha?”
“Para estar bem com a gramática, a senhora devia dizer: ‘Deixa estar que já te curo’.”
“Muito bem. Gramaticalmente é assim, mas na prática não é. Quando falamos naturalmente, o que nos sai da boca é ora o você, ora o tu; e as frases ficam muito mais jeitosinhas quando há essa combinação do você e do tu. Não acha?”
“Acho, sim, vovó, e é como falo. Mas a gramática…”
“A gramática, minha filha, é uma criada da língua e não uma dona. O dono da língua somos nós, o povo; e a gramática – o que tem a fazer é, humildemente, ir registrando o nosso modo de falar. Quem manda é o uso geral e não a gramática. Se todos nós começarmos a usar o tu e o você misturados, a gramática só tem uma coisa a fazer…”
“Eu sei o que é que ela tem a fazer, vovó!”, gritou Pedrinho. “É pôr o rabo entre as pernas e murchar as orelhas…”
Dona Benta aprovou. (…)
(Monteiro Lobato. Obra Completa. “Fábulas”, São Paulo, Editora Brasiliense)
No trecho, podemos analisar duas definições de gramática. A primeira é a que Narizinho diz que não admite certo tipo de fala e considera-o um erro. A segunda é a que Dona Benta diz que deve se adequar aos falantes. Pois bem, a gramática de Narizinho é a gramática normativa; a de Dona Benta, a gramática descritiva.
Normativo vem de norma. Isso é, a gramática normativa é aquela que aprendemos na escola como sendo a norma culta da Língua, e é utilizada na modalidade escrita formal.
Já a gramática descritiva tem como preocupação registrar a língua como ela realmente é falada. Isso não significa que ela não tenha regras ou que seja errada. Não existe linguagem certa ou errada. Existem erros dentro de uma certa convenção linguística, o que é diferente.
Como Dona Benta sugere, a língua sofre modificações em sua fala de acordo com o tempo e contexto social em que vivemos. E realmente, a gramática normativa tende a ir se modificando e se adequando à linguagem descritiva. A função da gramática descritiva é identificar todas as formas de expressão existentes e compreender quando, onde e por quem são produzidas, ou seja, realizar um estudo sociolinguístico.
O importante, para nós falantes e escritores, é identificar o contexto de nossas falas e registros para saber quando devemos usar a gramática normativa ou a descritiva.