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21 de junho de 2015

Exemplo de Questão sobre Escolas Literárias no Enem


Como vimos em nossa nova série de artigos sobre as escolas literárias luso-brasileiras, o Quinhentismo foi um movimento literário importante no início do século do descobrimento do Brasil. Para demonstrar a importância de estudar estes movimentos literários, selecionamos uma questão da edição 2013 do ENEM.

ENEM 2013 – QUESTÃO 97
TEXTO I
Andaram na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e daí a pouco começaram a vir mais. E parece-me que viriam, este dia, à praia, quatrocentos ou quatrocentos e cinquenta.
Alguns deles traziam arcos e flechas, que todos trocaram por carapuças ou por qualquer coisa que lhes davam. […] Andavam todos tão bem-dispostos, tão bem feitos e galantes com suas tinturas que muito agradavam.
TEXTO II
PORTINARI, C. O descobrimento do Brasil: 1956. Óleo sobre tela, 199 x 169 cm. Disponível em: www.portinari.org.br. Acesso em: 12 jun. 2013.
PORTINARI, C. O descobrimento do Brasil: 1956. Óleo sobre tela, 199 x 169 cm.
Disponível em: www.portinari.org.br. Acesso em: 12 jun. 2013.
Pertencentes ao patrimônio cultural brasileiro, a carta de Pero Vaz de Caminha e a obra de Portinari retratam a chegada dos portugueses ao Brasil. Da leitura dos textos, constata-se que
a) a carta de Pero Vaz de Caminha representa uma das primeiras manifestações artísticas dos portugueses em terras brasileiras e preocupa-se apenas com a estética literária.
b) a tela de Portinari retrata indígenas nus com corpos pintados, cuja grande significação é a afirmação da arte acadêmica brasileira e a contestação de uma linguagem moderna.
c) a carta, como testemunho histórico-político, mostra o olhar do ,colonizador sobre a gente da terra, e a pintura destaca, em primeiro plano, a inquietação dos nativos.
d) as duas produções, embora usem linguagens diferentes – verbal e não verbal -, cumprem a mesma função social e artística.
e) a pintura e a carta de Caminha são manifestações de grupos étnicos diferentes, produzidas em um mesmo momento histórico, retratando a colonização.

RESOLUÇÃO E COMENTÁRIO:
Alternativa C
Os dois textos, embora com linguagens distintas (verbal – que emprega palavras e não-verbal – que emprega imagens ou outros códigos), mostram a chegada dos colonizadores ao Brasil. A carta de Caminha é o primeiro documento a respeito dos indígenas e apresenta uma visão do homem dito ‘civilizado’ sobre os nativos, a partir da mentalidade europeia dos séculos XV-XVI. Já a pintura de Portinari, com um olhar mais crítico, apresenta a surpresa dos nativos em relação à chegada dos colonizadores.

Um texto que nos faz repensar as atitudes

Morrer é mais difícil do que parece - o texto de Paulo Varela Gomes

Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”.

São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.

Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara.

Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.

Decidimos que nunca me submeteria aos tratamentos da medicina oncológica, às suas armas: as clássicas (cirurgia), as químicas (drogas) e as nucleares (radioterapia). Estas armas destroem as defesas próprias do organismo e aceleram frequentemente a sua degradação. Já vi suficientes doentes de cancro entregues nas mãos da oncologia para tremer de horror ao pensar que poderia suceder-me o mesmo.

Quando voltámos para casa, não houve uma lágrima, um gesto de desespero, um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca.

Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. As palavras que trocámos em casa foram reduzidas ao mínimo. Uma consulta com um médico do IPO confirmou tudo o que estava no relatório do radiologista. Mais tarde, algumas instituições com nomes que tilintam como lingotes de ouro vieram dizer-nos o mesmo: não havia nada que valesse a pena fazer.

Essas opiniões não nos importaram, porém. Numa estranha frieza, só quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até me ajudaria se fosse necessário. Como disse Plotia ao poeta em A Morte de Virgílio de Hermann Broch: “A morte fecha-se a quem está só, o conhecimento da morte apenas se desvenda à união de dois seres.”

Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no nevoeiro do tempo. Passaram mais de mil dias desde a tarde abafada de 23 de Maio de 2012, quando fiz a TAC, até à nebulosa e fresca tarde de Primavera em que estou aqui a escrever isto. Dois anos e onze meses.

Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre. Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos.

Mas sei também que tenho recorrido a muitas medidas práticas para evitar a sorte ditada pelos oncologistas.

A primeira foi fazer-me acompanhar, desde algumas semanas depois da TAC, por um médico homeopático (os médicos encartados não acham graça nenhuma a que se chame médico a um homeopata, mas tenham santa paciência). Sob sua orientação comecei por mudar radicalmente de regime alimentar. Em vez de comer produtos tóxicos como faz a maior parte das pessoas, passei a alimentar-se com produtos que ajudam o meu sistema imunitário e alguns que combatem o cancro activamente. Além disso, o médico foi prescrevendo suplementos alimentares e medicamentos homeopáticos.

Devo à homeopatia a qualidade dos mais de mil dias de vida que levo de vantagem sobre os médicos oncologistas. Duas ou três semanas depois de começar a terapia já começava a duvidar de alguma vez ter tido cancro. Imaginem: um canceroso em estado grave, que pouco tempo antes estava arrasado de cansaço e pessimismo, foi à praia! Confesso que tive medo de entrar na água, eu que vivi junto ao mar e mergulhei nas suas ondas vezes incontáveis. Só no segundo dia consegui decidir-me, e foi tão grande a felicidade experimentada no corpo que percebi que a Idade do Gelo em que tínhamos vivido desde o diagnóstico tinha dado lugar a uma Primavera, incerta e frágil, é verdade, cheia de dias de nuvens, mas tempo de viver e não de morrer.

As semanas correram e fomos passear a Toledo, a Burgos, a Viseu. Participei em conferências, orientei alunos, fiz todos os dias companhia à minha mulher e aos nossos seis cães, andei com a minha neta aos saltos sobre os charcos de água da chuva. As minhas análises foram durante muito tempo boas, e o meu aspecto muito diferente da maioria dos desgraçados que frequenta os campos de morte da oncologia. Além disso, como os leitores e leitoras saberão, escrevi e publiquei três romances, uma colectânea de colunas escritas para jornais, e finalizei mais um romance e um livro de contos.

Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no meu espírito é muito antigo e muito complexo. Sou acompanhado por psicanalistas há muito tempo. Aquele com quem trabalho desde há alguns anos, e que é uma das peças-chave do puzzle da minha não-morte, recebeu como uma pancada a notícia do meu diagnóstico e, depois de uma breve conversa entrecortada de angústia e silêncio, lembro-me de lhe ter dito com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor…”

Quem é que estava a falar assim pela minha boca? Quem é que experimentava em mim essa estranha alegria raivosa que emergira quando soube que tinha um cancro e que este era incurável? Que força psíquica queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte?

A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem.

Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso.

O médico homeopata nunca me prometeu um milagre, e a minha saúde começou a piorar em Janeiro de 2014, cerca de um ano e meio depois do diagnóstico oncológico. Pouca coisa, ao princípio: algumas dores no pescoço, na cabeça e na garganta, mais cansaço, problemas intestinais. Pouco a pouco, desapareceram ou tornaram-se-me impossíveis, um por um, todos os prazeres físicos de cujo timbre e tom já quase me esqueci: o sexo, beber um copo de vinho tinto antes do jantar, fazer uma viagem com mais de duas ou três horas, o gosto da comida sólida a percorrer-me o interior da garganta com os seus variados sabores e texturas, uma corrida com os miúdos ou os cães.

Houve semanas piores, outras melhores, mas o tumor do meu pescoço foi crescendo, rebentou como um pequeno vulcão de pus, e ficou pouco a pouco com um aspecto tão abominável que deixei de aguentar ser eu a mudar o penso todas as manhãs. O terrível panorama estragava-me o dia e a melancólica e repugnante tarefa de cuidar do tumor ficou adstrita à Patrícia, que sabe fazer tudo e não tem nojo de nada. Mais tarde, alternando com ela, começaram a vir regularmente a minha casa as enfermeiras dos serviços continuados de saúde.

E, de repente, ia morrendo: uma grande hemorragia despertou-me a meio de uma noite de Julho de 2014, encharcado no sangue que brotava de uma veia que o tumor do meu pescoço pôs a descoberto e enfraqueceu. Desmaiei imediatamente e a Patrícia, não conseguindo ao princípio acordar-me, pensou que tudo estava acabado.

Ganhei depois, com lentidão e a custo, uma relativa saúde. Passei dias inteiros deitado. Depois, devagarinho, melhorei. Uma nova hemorragia, em Dezembro, embora não tenha atingido a violência da anterior, obrigou-me a considerar uma transfusão de sangue que fiz num hospital que estava, como quase todos nessa época, mergulhado num tal caos que passei um dia simultaneamente divertido e ofendido a observar a desordem que grassava à minha volta.

As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha morte interior: regressei à melancolia com que me sentava à sua cabeceira conversando com ela nas duríssimas semanas do Verão de 2012 que se seguiram ao veredicto do cancro. Como é que vou morrer? Exactamente como?, perguntava-lhe.

Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim próprio.

Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte.

O suicídio é uma ofensa frontal à vontade de Deus que quer que a morte de cada cristão seja a sua disponibilidade para de se entregar à Cruz no momento em que Cristo quiser e da maneira que Ele decidir. Mas eu e a Patrícia tínhamos jurado que eu morrerei aqui, em minha casa, e que nada me fará embarcar no carnaval de luzes da ambulância para ir morrer a um hospital. Esse juramento mantém-se.

Tomámos esta decisão mal tínhamos saído do parque de estacionamento da clínica onde fiz a TAC e ouvi o diagnóstico. No meu espírito doente, a morte celebrava jubilosamente a vitória desse momento e era-me tão impossível controlar ou combater este sentimento como invocar a luz da esperança, encolhida num canto de mim como um miúdo paralisado de terror. Enquanto regressávamos a casa, eu pensava na dificuldade e nos riscos envolvidos no modo como morreu o meu irmão, pensava no salto de uma ponte, pensava na agonia do veneno, na ignorância sobre medicamentos letais, mas sobretudo no facto de que todos estes caminhos da morte ainda concedem ao suicida o tempo suficiente para se arrepender, precisamente aquilo que eu não queria na altura, mergulhado num tumulto mental que julgava mais voluntário e corajoso do que de facto era.

Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?

Aquando da segunda hemorragia, cheguei-me muito próximo de encontrar uma resposta sem alternativa a estas questões. Depois de fechar os cães e de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas, ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a coronha da arma apoiada no solo. Quase não tinha forças e tremiam-me as pernas. A minha camisa estava empapada em sangue e, tendo passado a mão pela cara e os óculos, vi as árvores, os arbustos, a casa das ferramentas e do tractor, a encosta, a vinha, através de um nevoeiro vermelho. A decisão com que, apesar da fraqueza física, andei sem hesitar algumas dezenas de passos, surpreendeu-me a mim mesmo. Pronto, ia morrer. Aspirei o cheiro intenso, quase ridente, de uma hortelã-pimenta que nascera ao pé do pinheiro grande sem que, até então, alguém tivesse dado por ela. Coloquei a cadeira junto a uns troncos cortados, sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça, dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de que me rodeara. Veio até mim mais uma vez o cheiro da hortelã. Ergui os olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol, através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da encosta. Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para trás, para a cadeira branca e a arma, que ficaram ali completamente indiferentes à minha sorte. Ao abrir a porta, a Patrícia, sem conseguir dominar a torrente de lágrimas que lhe corria pelo rosto, caiu-me nos braços. Ficámos muito tempo agarrados um ao outro, quase imóveis, como se fôssemos o tronco de uma grande árvore.

Não há muito mais a contar. A saúde vai piorando pé ante pé.

Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei com o sofrimento nestes mais de mil dias:

“Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.

20 de junho de 2015

Nossa língua africana

Nossa língua africana


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“A proximidade entre o português arcaico e as línguas do grupo banto resultou no português que falamos hoje”. Entrevista com a professora Yeda Pessoa de Castro.
Por Marcello Scarrone, do Vermelho 
Em Angola, ela é Yeda “Mun-tu” Castro. Na Nigéria, é Yeda Pessoa “Olobumim” Castro. Vem de longe a relação da etnolinguista e professora da Universidade do Estado da Bahia com a cultura africana. Ainda criança, em Feira de Santana, Yeda viu-se com o desejo de decifrar a incompreensível língua falada pelos negros. Desejo que a levou a desbravar um caminho em tudo pioneiro: mestrado na Nigéria, doutorado no Zaire e a descoberta de uma herança linguística fundamental para o português falado no Brasil.
Se nos orgulhamos de falar “cantano”, devemos agradecer ao gosto das línguas banto pelas vogais. Vem da mesma fonte africana o costume de abolir os plurais, como em “as criança” e “os menino”.
Pergunta – Todo brasileiro é culturalmente negro, como disse Gilberto Freyre?
Yeda Pessoa de Castro – Não podemos generalizar. A cultura brasileira é em parte negra, mas depende do grau de presença africana pelas várias regiões. Mas a língua portuguesa que falamos, sim: esta é culturalmente negra. Ela é resultado de três grandes famílias linguísticas: a família indo-europeia, com a participação dos falantes portugueses, a família tupi, com a participação dos falantes indígenas, e a família níger-congo, com a participação dos falantes da região subsaariana da África.
Por que a participação da família africana é tão importante?
Durante três séculos, a maior parte dos habitantes do Brasil falava línguas africanas, sobretudo línguas angolanas, e as falas dessas regiões prevaleceram sobre o português. Antes se ignorava essa participação, se dizia que o português do Brasil ficou assim falado devido ao isolamento, à predominância cultural e literária do português de Portugal sobre os falantes negros africanos analfabetos. Eles realmente não sabiam ler ou escrever português, mas essas teorias eram baseadas em fatores extralinguísticos. Eu introduzi nessa discussão a prevalência e a participação dos falantes africanos, sobretudo das línguas níger-congo, que são cerca de 1.530 línguas. As mais faladas no Brasil foram as do Golfo do Benim e da região bantu, sobretudo do Congo e de Angola.
São as chamadas de ioruba?
Ioruba são as línguas antes chamadas de sudanesas. Hoje as chamamos de línguas da África ocidental, ou línguas oeste-africanas. Destas, as mais faladas no Brasil foram o ioruba, que geralmente chamamos de nagô, e a língua fon, do grupo ewe-fon, que nós chamamos de jeje.
Como se interessou pelas línguas africanas?
Desde pequena, na fazenda dos meus tios, em Feira de Santana, eu via aquelas rezas, havia muitos negros na região, via aqueles cantos, benzeduras, quando ficava doente tomava daquelas mezinhas que eles faziam com ervas. Em Salvador eu cresci num bairro popular, de famílias pobres como era a minha. A escola onde estudei, Nossa Senhora de Fátima, tinha uma diretora, professora Minervina, uma mulher negra, grande, que me impressionava, e no trajeto de minha casa para a escola havia muitos, muitos negros. Eu não conseguia entender o que eles diziam, aquelas palavras misteriosas. E prometi para mim mesma: “um dia vou saber o que eles estão dizendo”.
Então fui fazer Letras, para ter a possibilidade de matar essa curiosidade. No curso tinha um professor, Nelson Rossi, que influenciou muito as pesquisas sobre dialetologia, e me interessei em estudar a participação dos falantes africanos na formação do português do Brasil. O professor Rossi disse: “Ah, não se preocupe que isso tudo já foi estudado por Jacques Raimundo [autor de O elemento afro-negro na língua portuguesa (1933)], Renato Mendonça [autor de A influência africana no português do Brasil (1935)], nos anos 30”.
RH Começou sua pesquisa por onde?
Comecei em Salvador, levantando esse vocabulário, essa fala, mas tive a felicidade de poder sair do Brasil. Valia a pena sair do Brasil naquele momento, anos 60, muito conturbados, não é? Fui para a Nigéria, para a cidade de Ibadan, era uma zona de língua ioruba e na vizinhança se falava fon, jeje. Então fiz um trabalho sobre ioruba e fon. Até aquele momento era concepção vigente que a maior influência que havia no Brasil era a da presença ioruba/nagô.
Não se conhecia a influência bantu?
Nina Rodrigues, quando estudou a influência africana no Brasil, fez um trabalho primoroso com os dados etnográficos que existiam. As pessoas o acusam de racista, mas eram as teorias vigentes na época. Quem garante que amanhã ou depois alguém não irá dizer que nós também somos racistas, e que essa teoria não vale nada? Nina começou a estudar a população negra africana em Salvador no momento em que havia uma grande concentração de falantes ioruba, ficou impressionado e afirmou que a mais importante influência africana no Brasil era ioruba. E ficou impressionado com outra coisa: naquela época ioruba era uma língua escrita, e o prestígio da escrita em comparação com as línguas europeias a fez prevalecer sobre outras línguas que não tinham escrita até aquele momento. Ele a achou uma língua literária, de uma cultura superior, fez tantos elogios à língua ioruba e aos falantes ioruba que o Brasil terminou dividido em duas grandes influências: ioruba na Bahia e o resto. Para Nina, o resto é o resto, não tem legitimidade, para Pierre Verger também. Nesse meio-tempo a influência iwe-fon ficou esquecida. Meu estudo sobre ioruba e iwe-fon foi a primeira dissertação de mestrado de um brasileiro numa universidade africana.
Só mais tarde, em 76, quando voltei a Salvador e fui ao Caribe também, comecei a perceber que havia muito mais coisas que não eram ioruba. Havia bantu. Esqueceram que a maioria, 75% dos cerca de 4 milhões de negros escravizados no Brasil, era de procedência bantu. Por que essa população foi silenciada? Então apareceu a oportunidade de ir para o Zaire, o antigo Congo belga, numa universidade maravilhosa. Mobutu, que era o ditador do país, ele próprio um ignorante, fazia questão de mostrar que havia cultura, que havia uma grande universidade, a Universidade Nacional do Zaire, Unaza. E lá escrevi meu doutoramento.
O que descobriu?
Nós não temos um falar crioulo do português, como no Caribe, na Guiana ou em outras regiões onde os portugueses foram os colonizadores. Mas percebi uma coisa: Angola e Moçambique também não têm falar crioulo. Por quê? Devia haver um link, não só uma coisa extralinguística, mas algo de tipo intrínseco, que impediu que emergisse um falar crioulo em Angola, em Moçambique e no Brasil. E eu vi que foram as mesmas línguas que entraram em contato: o português arcaico e as línguas do grupo bantu, especialmente as do Congo e de Angola, pois o tráfico com Moçambique foi muito menor e posterior. No Congo descobri o que aconteceu no Brasil: a proximidade que houve por acaso entre o português arcaico e as línguas do grupo bantu, que resultou no português que falamos hoje.
No que resultou a combinação dessas línguas?
As línguas do grupo bantu não têm grupos consonantais, não têm uma sílaba fechada por consoante. O resultado é que nosso português é riquíssimo em vogais, afastado do português lusitano, muito baseado nas consoantes. O baiano fala cantando? Todo brasileiro fala cantando – aliás “cantano”, porque a gente sempre evita consoantes. A parte sonora da palavra é a vogal, e nós fazemos questão de cantar. No futebol nós dizemos “gou”, em Portugal dizem golo, para acentuar a consoante. Nossa língua é vocalizada, nós colocamos vogais até mesmo onde elas não existem. Pneu: nós usamos duas sílabas. Ritmo: nós dizemos três sílabas. Não sei por que as gramáticas insistem em dizer que “ritmo” tem duas sílabas, quando tem três. Fui ver a estrutura silábica do português arcaico e a formação silábica e o processo fonológico das línguas faladas em Angola e no Congo, e reparei numa extrema coincidência: é o mesmo tipo de estrutura silábica: consoante-vogal-consoante-vogal o tempo inteiro. Houve o mesmo tipo de encontro do português arcaico com essas línguas, que eram faladas majoritariamente no Brasil. Em vez de haver um choque, em vez da necessidade de emergir outro falar, um falar crioulo, não: houve simplesmente uma acomodação, devido às coincidências dessas estruturas linguísticas.
Que outras características nosso português herdou?
A eliminação dos plurais, por exemplo. Marcamos o plural pelo artigo que antecede o substantivo, mas o substantivo fica no singular: “os menino”, “as criança”, isso é normal no Brasil. Por quê? Porque nas línguas do grupo bantu o plural das palavras se faz por prefixo. A linguagem popular do Brasil, em qualquer região, tem as mesmas características: evitar grupos consonantais, substantivo sempre no singular, além da dupla negação, “eu não sei não”: isso é africano, o português de Portugal jamais diz isso. Também começar a frase com pronomes átonos: me diga, me fala, a gente começa a frase usando próclise. A mesóclise do português desapareceu na linguagem do Brasil: “dir-te-ei”, ninguém diz isso.
Em que situações o português do Brasil é mais africano?
O nível mais próximo que tínhamos de vestígios de línguas africanas é o das linguagens religiosas: a dos vissungos em Minas Gerais, a do candomblé da Bahia, a da umbanda. A linguagem estava lá, não mais como competência linguística, mas como competência simbólica. Esta foi outra descoberta do meu trabalho: a competência simbólica. Quando as pessoas recebem uma entidade, vamos dizer, Oxum, rainha das águas (eu também sou filha de Oxum), há a saudação “Olele ô”. O que é “Olele ô”? Não interessa, a saudação é aquela. Isso é competência simbólica. No mês de Maria [maio] se reza a ladainha num suposto latim, que não é mais latim: “Regina Coeli, Aleluia, Regina bofetarum”, em vez de profetarum. As pessoas estão cantando para a rainha, então não tem importância: é a competência simbólica. Assisti a um caso muito curioso numa cerimônia no Pelourinho. Era uma trezena – porque na Bahia trezena são três dias, não treze, é um tríduo – uma trezena de Santo Antônio, e teve uma cena inteiramente amadiana [de Jorge Amado]. Lá tinha traficantes, prostitutas, tinha tudo. Primeiro, eles fizeram uma roda de santo para fazer uma feijoada de Ogum, e cantaram com sistema lexical africano. Quando terminou, fomos cantar para santo Antônio: ele estava num cantinho do altar, com aquelas flores azuis e brancas de papel crepom, e eles começaram a cantar a ladainha em latim acompanhada de tambor. O trecho “Agnus Dei qui tollis peccata mundi” foi cantado “Agnus dê clitóris peccata mundi”. Agnus passou a ser uma entidade que nos deu clitóris. Dizem que quem não sabe rezar xinga Deus, eu não concordo. Quem não sabe rezar que continue rezando dentro de sua competência simbólica, a competência linguística não tem nenhuma importância.
A língua se transforma segundo o estrato social?
O nível que vem depois da linguagem popular é o do falar mais cuidado, este que nós estamos usando aqui, e com tom regional. E enfim o português literário do Brasil, o português escrito, que obedece aos padrões da norma da língua portuguesa como um todo. À medida que você se aproxima desse nível, a influência africana diminui, devido à escolaridade. Quando somos menos alfabetizados, falamos mais africanizado. Quando somos mais alfabetizados, falamos mais aportuguesado. Mesmo assim não se consegue inibir esses traços, que estão na constituição do português do Brasil.
É positiva a mobilização da sociedade e do Estado brasileiros por maior reconhecimento das nossas heranças africanas?
Sim, inteiramente. Quando era diretora do Centro de Estudos Afro-Orientais da Bahia, em 82 ou 83, propus à Secretaria de Educação do Estado – e os movimentos negros me apoiaram nisso – a introdução de uma disciplina obrigatória nos currículos do Ensino Médio: Estudos Africanos (geografia, língua, literatura, história, antropologia, sociologia). A proposta foi aceita: em 84, 85, já tinha uma norma do então secretário de Educação da Bahia, professor Valdo Boaventura, determinando a introdução dessa disciplina nos currículos. Eu fui a predecessora da lei que seria aprovada bem mais tarde, em 2002, de Lula. E acho as cotas muito positivas, mas não se pode aprovar uma pessoa que se diz afrodescendente se for ignorante naquilo que pretende fazer. É muito importante que a população negra entre na universidade para abalar a estrutura, trazendo um novo discurso, uma nova visão, um novo colorido, que entre para abalar a concepção de que a universidade é uma instituição branca. Mas não se pode fazer isso indiscriminadamente. Há um tempo, fiz parte de uma banca examinadora que tinha duas candidatas, uma que não era negra e uma negra, e a segunda fez a opção de entrar pelas cotas. Só que o discurso dessa candidata foi pífio e o trabalho que ela escreveu era de uma pessoa quase analfabeta. Quem passou? Ela. Para que haja cotas é preciso que também haja o mérito.
As universidades brasileiras ainda são muito elitistas?
Extremamente elitistas. Veja a Universidade Federal da Bahia, por exemplo. Até hoje não existe um curso de línguas africanas. Até hoje não se estuda a questão das línguas africanas no Brasil numa cidade como Salvador, onde 85% da população são afrodescendentes. Quando assumi a direção do Centro de Estudos Afro-Orientais, abri a biblioteca para o público em geral e foi um escândalo: a biblioteca da universidade é para servir à universidade, diziam. Não, eu disse, aqui é um centro de estudo de extensão da universidade, então vou trabalhar com a comunidade. Fui acusada de estar vulgarizando a universidade. Por outro lado, como eram os anos 80, quando o movimento negro foi instalado na Bahia, falaram que eu era uma branca ocupando lugar de negro. Então fiquei entre a cruz e espada. Mas como sou baiana, e todo baiano gosta de capoeirar, fui capoeirando até o fim, sem nenhum conflito.
O que explica a persistência de intolerância contra religiões afro-brasileiras?
Primeiro: são religiões que não têm uma bíblia, são baseadas na oralidade. A pedagogia do mundo ocidental é toda baseada na escrita, só é legítimo o que é escrito. Como essas religiões não têm um livro sagrado, são folclore. E, como disse Edison Carneiro, cada candomblé, cada grupo desses, é uma igreja independente em si mesma. Não tem um papa que diga que tem que fazer isso ou aquilo. O segundo preconceito: eram religiões predominantemente praticadas por negros. E a comunidade negra é ligada à escravidão, ao analfabetismo, à falta de cultura, a uma série de preconceitos que nós sabemos que existem no Brasil. É uma religião sem proselitismo, ninguém faz sua cabeça para entrar no candomblé, você vai se quiser, e na hora que quiser sair, você sai.
Não oferecem céu, inferno e purgatório, isso não existe para elas. São religiões livres, que aceitam os indivíduos como eles são, homossexuais ou não, traficantes ou não, não interessa: não há nenhuma norma para você participar de um candomblé, da umbanda. Isto faz frente à Igreja Católica, que está perdendo fiéis. A Igreja Universal do Reino de Deus, com a força de seu muito dinheiro, quer reconquistar exatamente esse espaço, que o “povo de santo” conquistou e ocupa na sociedade brasileira.
Como vê a apropriação de manifestações afro-brasileiras pela indústria cultural?
De certa maneira, essa indústria cultural divulga traços da presença negra africana no Brasil. A questão é a maneira como divulga isso. Por exemplo, escola de samba: houve essa questão da Beija-Flor [patrocinada em 2015 pela ditadura da Guiné Equatorial] e eu fiquei estarrecida com a entrevista de um dos membros da escola, dizendo “Nós não fazemos política, de onde veio o dinheiro não interessa”. Eu me pergunto por que as entidades que geralmente se preocupam com isso não dizem nada. Os carnavais do Rio são a exibição fantástica de comunidades com pessoas pobres que compram suas fantasias para dar dinheiro aos grandes cartolas das escolas de samba. Na Bahia a coisa é mais limitada: os blocos afro e afoxé, coitados, lutam para sair no carnaval, têm que competir com Ivete Sangalo, Margareth Menezes, Carlinhos Brown. São blocos que querem apresentar o carnaval com os traços da cultura que eles preservam. O bloco Olodum recebe muito dinheiro, mas eles trabalham para isso, não recebem de nenhum ditador africano.
Os países africanos e caribenhos se interessam pela cultura brasileira?
No Caribe, há um interesse muito grande pelos traços de origem africana na formação das religiões. Na Nigéria e no Benim, há muita gente da universidade interessada na troca de estudantes e de professores. Em Angola, claro: Bahia é Angola, Angola é Bahia, o interesse é enorme para estudar o que chamamos de africanias, todo o legado de matriz cultural africana nas Américas. Há dois anos a Universidade Estadual da Bahia assinou um acordo com a Universidade Agostinho Neto, a mais importante, a mais antiga de Angola, para ensinar duas línguas africanas no currículo, quicongo e quimbundu, como línguas estrangeiras. São as mais faladas, e muito próximas, como se fossem português e espanhol, antes eram uma só. Mas até hoje a Uneb não tomou nenhuma providência para introduzir esse curso, o que é uma pena. Seria a primeira universidade brasileira a oferecer um curso de línguas africanas como línguas, e não como dialetos.
Principais obras da autora
Falares Africanos na Bahia (um vocabulário Afro-Brasileiro). Vol. 1. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005.
A língua mina-jeje no Brasil. Vol. 1. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 2002.
Contos Populares da Bahia: aspectos da obra de João Silva Campos. Vol. 1. Salvador:
Departamento de Assuntos Culturais da Prefeitura do Salvador, 1978.
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19 de junho de 2015

Um pouco de literatura


Nesta nova série de artigos iremos apresentar as escolas literárias luso-brasileiras, conteúdo cobrado no caderno deLinguagens, Códigos e suas Tecnologias do Enem. Aconselhamos ao candidato conciliar os aspectos aqui tratados com seus conhecimentos de história e geografia. Inicialmente, devemos dizer que, pelo fato do Brasil ter sido colônia de Portugal até 1822, a produção literária até este período pode ser nomeada sob o rótulo de escolas luso-brasileiras, pois a dependência econômica e política para com a metrópole também condicionou-nos a imitação de aspectos culturais.
A primeira escola que trataremos será o Quinhentismo, que se iniciou com o descobrimento do Brasil e perdurou até o fim do século XVI. O contexto histórico desta escola abrange a expansão marítima europeia pelos continentes africano, asiático e americano. Conciliada à procura de novas colônias, a expansão requeria dos viajantes informações sobre as terras visitadas e os povos encontrados, em algo que se assemelharia, nos dias de hoje, a um relatório. Este tipo de relato descritivo geralmente informava sobre as condições de viagem, como informações cartográficas e aspectos relevantes para a metrópole, como recursos minerais encontrados, a fauna e a flora das terras descobertas.
O exemplo mais consagrado de obra deste período é a carta de Pero Vaz de Caminha, que viajou com Pedro Alvares Cabral, na qual há o relato para o Rei D. Manuel sobre a descoberta da “Terra da Vera Cruz”. Abaixo reproduzimos um excerto do texto original de Caminha, já adaptado para o português corrente.
E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, estando da dita Ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos.
Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome – o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz.”
Fonte: Fundação Biblioteca Nacional, disponível em: http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/carta.pdf.
Como características gerais da produção quinhentista, temos o emprego da linguagem erudita, clareza, ausência de figuras de linguagem e simplicidade. Esta carta irá marcar a construção do imaginário sobre os habitantes e as virtudes da terra, o que posteriormente se denominou nativismo, caracterizado pelo afeto e exaltação das características da colônia. Este fenômeno, embrionário ainda no Quinhentismo, terá desdobramentos e influenciará a produção barroca e do Arcadismo.
Outros autores relevantes do período são Pero de Magalhães Gândavo, Gabriel Soares de Sousa e Ambrósio Fernandes Brandão. Não poderíamos nos esquecer da produção dos missionários jesuítas que, motivados pela missão de civilizar os indígenas, produziram obras de caráter pedagógico e moralizante, como consta nos “Diálogos sobre a Conversão dos Gentios”. Este diálogo pode ser visto como uma justificativa da ação missionária, incentivando sua prática. Este texto formava parte da pedagogia empregada nos colégios jesuíticos para a formação de futuros padres.

18 de junho de 2015

Tema de redação


 O tema da prova de redação desse vestibular foi “A redução da maioridade penal contribuirá para a diminuição da criminalidade no Brasil?”.
A coletânea de textos é composta por quatro textos que discutem os prós e os contras da redução da maioridade penal, um tema muito debatido atualmente por todos os setores da sociedade brasileira. Como, normalmente, um vestibular de meio de ano, mesmo que da UNESP, possui menores proporções do que um vestibular de fim de ano, é possível trazer como tema uma questão bem recente.
E por ser um tema de discussão bem recente, atual e, ainda por cima, polêmico, o candidato deve tomar um cuidado maior para obedecer o recorte temático da coletânea de textos e se conter ao expressar as suas opiniões, já que pressupomos que grande parte da população brasileira já teve contato que a questão da idade penal e, assim, já tem uma posição formada ou ainda tem algumas dúvidas.
A atenção também deve estar voltada ao respeito aos direitos humanos, pois afirmações extremistas, radicais, preconceituosas e discriminatórias devem ser evitadas e combatidas, não só em provas de redação, mas também ao longo de nossas vidas. Quando o tema possui uma carga de polêmica, como é o caso da redução da maioridade penal, por vezes os ânimos se exaltam e o bom senso e a ponderação dão lugar à irracionalidade, ao desrespeito e à intolerância.
Assim, o tema da proposta de redação do vestibular de meio de ano 2015 da UNESP é a redução da maioridade penal e o comando de especificação de tema é o questionamento se esta contribuirá para a diminuição da criminalidade no Brasil. Portanto, esta pergunta deve ser respondida pelo candidato e o foco deve ser a diminuição da criminalidade.
O texto número um da coletânea é um excerto de uma matéria publicada no jornal Folha de São Paulo no dia 1º de abril deste ano na qual há a opinião favorável à redução da maioridade penal do advogado Carlos Velloso:
O jovem de hoje é diferente do jovem de 1940, quando essa maioridade penal de 18 anos foi instituída. Agora, ele é bem informado, já compreende o que é uma atitude delituosa. Muitos jovens de 16 anos já estão empregados no crime organizado. A redução vai inibir os adolescentes e criminosos que aliciam menores.
Segundo Velloso, a redução da maioridade penal dos 18 para os 16 anos inibiria a entrada dos adolescentes no crime organizado, já que hoje, segundo eles, muitos desses jovens foram aliciados por quadrilhas que traficam drogas e armas e que comandam, muitas vezes, comunidades inteiras. Além disso, de acordo com o advogado, esse adolescente já compreende o que é um crime, diferente dos jovens da década de 40, quando esta regra foi estabelecida.
Já o texto número dois da coletânea é um excerto de uma matéria publicada no portal G1, no mesmo dia, com a fala do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello:
Não vamos dar uma esperança vã à sociedade, como se pudéssemos ter melhores dias alterando a responsabilidade penal. Cadeia não conserta ninguém.
Afirmando que as prisões não consertam ninguém, podemos inferir que o ministro é contrário à redução da maioridade penal, já que a detenção só pioraria a situação, formando mais criminosos, como muitos pensam ao dizerem que a cadeia é a escola do crime. Este argumento é muito recorrente entre os que se posicionam contra a tal redução.
Os textos número três e quatro, por sua vez, não trazem apenas opiniões contrárias ou favoráveis à redução da maioridade penal, mas também debatem as possíveis causas e consequências de menores envolvidos em práticas ilícitas e são eles que trazem maiores informações e estabelecem melhores relações entre o tema e a própria coletânea de textos.
Iniciando pelo texto número três, trata-se de uma adaptação de um artigo opinativo cujo autor é Cláudio da Silva Leiria, promotor de justiça. Segundo ele, o adolescente dos dias atuais amadurece muito mais rápido do que os jovens das gerações passadas devido ao grande acesso à informação e à facilitação do acesso à educação (há controvérsias) e, por isso mesmo, uma pessoa, aos 16 anos, já pode votar e ser emancipado. Para Leiria, os criminosos se valem da impunidade e das leis brandas que contemplam os menores de idade para realizarem crimes. Enquanto políticas públicas para crianças e adolescentes não são efetivadas, a medida paliativa mais adequada, para o promotor, é a redução da maioridade penal.
unesp redaçãoFinalmente, o texto número quatro é uma adaptação de mais um artigo opinativo, agora de autoria de Paulo Sérgio Pinheiro, ex-secretário de Estado dos Direitos Humanos. Para o autor, por trás de um adolescente infrator há sempre um adulto que compõe o crime organizado que, por sua vez, não é combatido devidamente por causa da ineficiência da polícia. Colocar menores de idade nas cadeias ou nas fundações destinadas a eles, sem o tratamento adequado, não trará segurança à sociedade como um todo. O ideal, de acordo com Pinheiro, seria melhorar a Fundação Casa, por exemplo, a fim de evitar que o adolescente infrator volte ao crime e vá preso em presídios comuns, destinados aos adultos.
Vale ressaltar que o candidato deve perceber que dentre os quatro textos da coletânea há três vozes ligadas à justiça (um advogado, um ministro do STF e um promotor) e apenas uma voz ligada aos direitos humanos, justamente a que mais explica e justifica a não redução da maioridade penal no Brasil. Apesar disso, tanto o texto número três quanto o número quatro afirmam a necessidade da criação e implementação de políticas públicas voltadas às crianças e aos adolescentes e um tratamento diferenciado ao menor infrator. Esses pontos são fundamentais e devem ser trabalhados pelos candidatos.
Como, dentre os quatro texto, há dois favoráveis e dois contrários à redução da idade penal no país, pensamos ser possível que o candidato escolha um dos lados e argumente, de forma embasada e consistente, a favor da sua opinião.

Lamentável!!!!!!

'Ranking' expõe intimidade sexual de alunas da USP e causa revolta

Material cita também homossexuais e foi exposto no campus de Piracicaba.
Lista tem apelidos que identificam estudantes; instituição vai apurar o caso

Cartaz colocado no Centro de Vivência da USP de Piracicaba (Foto: Élice Botelho/Arquivo pessoal)Cartaz colocado no Centro de Vivência da USP de Piracicaba (Foto: Élice Botelho/Arquivo pessoal)
Um cartaz com uma espécie de 'ranking' da vida sexual de alunas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), campus da USP em Piracicaba (SP), revoltou um grupo de estudantes da instituição. O material foi colocado no Centro de Vivência, o pátio onde os universitários se reúnem, mas retirado depois de causar polêmica e manifestações contrárias que se espalham pelos muros da unidade. A universidade informou que vai apurar o caso.
Considerado preconceituoso e ofensivo por alunos e professores, o cartaz era dividido em colunas que atribuíam, com palavra de baixo calão e termos como "teta preta", as supostas características das estudantes listadas pelos apelidos com que foram batizadas no campus, além do número de pessoas que teria mantido relações. Os "codinomes" são uma tradição na Esalq e muitos universitários os carregam após o curso.
O professor Antonio Ribeiro de Almeida Junior, da Esalq, pesquisa diferentes tipos de abusos nas universidades há 14 anos e chegou a relatar casos de violência à CPI dos Trotes no início do ano. Ele disse que o ranking comprova a existência de uma cultura da discriminação no campus. "O cartaz tem caráter de assédio e conteúdo difamatório intencional", disse.
De acordo com o professor, materiais como esse já foram produzidos antes, mas nunca tinham sido expostos como aconteceu nesse caso. "Foi a primeira vez que colocaram em local público. Isso dá margem para que as pessoas, reconhecidas por seus codinomes, sejam discriminadas", criticou. Segundo ele, o cartaz também cita homossexuais.
Cartaz feito em repúdio a ação discriminatória na Esalq Piracicaba (Foto: Claudia Assencio/G1)Cartaz feito em repúdio à lista discriminatória na Esalq Piracicaba (Foto: Claudia Assencio/G1)
Cartaz feito em repúdio a ação discriminatória na Esalq Piracicaba (Foto: Claudia Assencio/G1)Cartaz de repúdio também foi exposto no Centro de Vivência da Esaql (Foto: Claudia Assencio/G1)
Revolta
A aluna da Esalq e integrante do Diretório Central dos Estudantes, Élice Natalia Botelho, de 22 anos, ficou revoltada com o conteúdo do cartaz e se posicionou sobre o abuso em uma rede social na internet.
Cartaz feito em repúdio a ação discriminatória na Esalq Piracicaba (Foto: Claudia Assencio/G1)Cartazes de repúdio se espalham pela Esalq,
em Piracicaba (Foto: Claudia Assencio/G1)
Em trecho de texto de repúdio, ela afirma: "Percebi que os níveis de machismo, lgbtfobia e racismo da Esalq não param de piorar. (...) Pensei que a CPI de Violação de Direitos Humanos das Universidades Estaduais Paulistas tivesse alertado as pessoas, mas a prova [cartaz com o ranking] mostra que, na verdade, tem gente que está no caminho oposto".
A jovem contou que algumas meninas se juntaram e fizeram cartazes de repúdio ao material exposto no final de maio com os termos preconceituosos, mas os primeiros protestos também foram retirados do Centro de Vivência. "Foram arrancados por alguém que se incomodou e, após isso ter ocorrido, elas voltaram a fazer mais cartazes", afirmou.
'Lógica de poder'
O episódio, para o professor Almeida, é uma evidência de que há grupos que sustentam uma cultura opressora no campus. "Eles têm o objetivo de discriminar e atuam com uma lógica de poder", afirmou Almeida. O professor disse que mesmo após as investigações, casos como esse ainda são comuns.
Esalq
A instituição afirmou que soube do caso após ser questionada pela reportagem. "A direção do campus tomou ciência, por meio de informação do Portal G1, da existência de material que foi exposto no mural do Centro de Vivência e encaminhará o material para apreciação de uma comissão sindicante, cumprindo trâmite regular", informou a Esalq em nota da assessoria de imprensa.
Cartaz foi exposto no Centro de Vivência da Esalq em Piracicaba (Foto: Claudia Assencio/G1)Cartaz foi exposto no Centro de Vivência da Esalq em Piracicaba (Foto: Claudia Assencio/G1)

17 de junho de 2015

Treino - treino - isso vale!

É sempre importante estarmos atentos para a realidade mundial e em especial a brasileira, temos de ler e assistir jornais, ler revistas, etc. em síntese, estar em sintonia com as notícias. Os vestibulares atuais exploram com certo peso essas atualidades, incorporando o aspecto do dia a dia. É claro que o racionamento, assim como outros temas, estão cotados para servir de escopo à elaboração de um texto dissertativo, mas, o mais importante é que o vestibulando esteja preparado para enfrentar a tudo e a todos.
As provas de hoje estão todas intertextualizadas, com a integração de conteúdos comuns à prova de gramática, literatura e interpretação de texto, no qual o senso crítico e de compreensão do vestibulando farão a diferença. Se for de seu interesse produza alguns textos e me envie para análise, com o tempo, e com a prática de escrever estarás apta a produzir qualquer tipo de texto que venha a ser proposto. Escrever bem não é coisa do outro mundo, é alcançável a todos, basta apenas interesse.
Na produção de um texto, o mais importante é como você organiza as ideias, muitas vezes o candidato sabe muito sobre o assunto, todas as suas causas e consequências, porém ele não tem a preocupação de organizar suas ideias, e esse, certamente é o responsável pela reprovação de muitos na prova de redação.
A opinião pessoal no ato da elaboração de um texto dissertativo, obrigatoriamente terá de ter um posicionamento, veja bem, é diferente de opinião, você NUNCA deverá utilizar o termo "na minha opinião", isso é fatal. Mas terá de ter um posicionamento. O modo de correção da prova é muito rígido, de modo que determinado professor não possa também expor sua opinião julgando o aluno ao espelho de seu pensamento. A prova é corrigida por três professores e eles se revezam também para revisa-la, portanto não se preocupe com o modo como serás julgada. A correção abordará aspectos formais do texto, o emprego da gramática normativa, o senso crítico e a correlação tema/texto.

Possíveis temas para redações atuais

Os temas propostos para redação no Enem geralmente têm caráter social, ou seja, são relacionados a questões coletivas da atualidade, dificilmente ser temas conflituosos e polêmicos onde há conceitos políticos.
Vejamos algumas sugestões:

A participação do jovem na sociedade

Os protestos no Brasil surgiram inicialmente para contestar os aumentos nas tarifas de transporte público, ganharam força com a participação dos jovens e servem como mote para a redação no Enem. Espera-se que o aluno mostre argumentos que apontem o jovem como agente transformador que, além de ter consciência cidadã, intervém com ações práticas.
Além da questão dos protestos, há  a participação do jovem como eleitor e a importância do voto consciente. Outro caminho possível é mostrar ações concretas de grupos voluntários formados por jovens, que prestam solidariedade a outros grupos. Ressalto que, nos dois ou três parágrafos de desenvolvimento, entre a introdução e a conclusão, é necessário apresentar mais de um argumento concreto que mostre o jovem como agente transformador da sociedade.

O esporte como ferramenta de inclusão social

Motivado pela Copa das Confederações neste ano, pela Copa do Mundo  e pela Olimpíada em 2016 no Brasil, se o esporte aparecer como tema, é importante que o aluno o defenda como uma forma de incluir minorias na sociedade. Vale mostrar o esporte como um meio para obter saúde física e mental, falar em pessoas portadoras de deficiência que conseguem se incluir em um grupo estimuladas pelo esporte e contar histórias de jovens carentes que, por meio do esporte, tiveram acesso aos estudos. No entanto, histórias particulares ou de pessoas próximas não são válidas como argumento: ao citar alguém em particular, é preciso dar nome a entidades ou pessoas famosas, para que o corretor tenha certeza de que o aluno não está inventando uma história.

A valorização da saúde pública 

Motivado pelas manifestações populares que se espalharam pelo País, o governo brasileiro anunciou uma série de medidas relacionadas à questão da saúde pública. Entre as principais, o Brasil vai importar médicos estrangeiros para amenizar a escassez de profissionais nas regiões mais carentes, e estudantes de medicina de faculdades públicas e privadas terão que trabalhar dois anos no SUS para ter o diploma. Na redação do Enem, espera-se que o aluno faça uma reflexão a respeito da importância de priorizar a saúde, e que ele proponha possíveis soluções com base em sua realidade.

Alternativas para o transporte público urbano

Estopim para a explosão das manifestações no Brasil, que desde o início protestavam contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô, a questão da mobilidade urbana pode requerer soluções de candidatos na redação do Enem. Primeiro, é importante que o aluno mostre como essa questão interfere na vida dos cidadãos brasileiros. Além disso, é fundamental propor soluções sustentáveis e que não exijam gastos públicos exagerados.
Mais do que apontar os problemas, a prova exige do aluno uma proposta de solução. O  ideal é citar exemplos de países onde o transporte público é eficiente, como Inglaterra e Holanda. Outro caminho para sair do senso comum é citar meios de transporte alternativos, como bicicletas ou grupos de caronas organizados por meio de redes sociais.

A tecnologia como meio para a educação

Escolas particulares e públicas estão cada vez mais preocupadas em incluir tecnologias digitais na educação. Neste ano, o Ministério da Educação investiu em tablets para professores da rede pública, que podem não só ser um material didático, mas também estimular uma nova forma de educar. Se o tema da redação do Enem envolver tecnologia e educação, espera-se que o aluno aponte ações práticas que vêm sendo realizadas pelo governo ou por instituições privadas. Além de novas ferramentas, outro caminho possível é ressaltar os cursos de educação a distância, que vem crescendo, e usar um artifício chamado argumento analógico, quando o aluno compara gerações diferentes.
Argumentos contra o uso da tecnologia, neste caso, só funcionam se estiverem muito bem embasados e se o aluno fizer um contraponto com outros argumentos positivos. "É possível fazer uma defesa parcial, dizer que há aspectos positivos e negativos, mas é preciso que haja mais argumentos positivos, que concordem com o enunciado do tema". Apenas dois argumentos, um positivo e um negativo, não são suficientes, pois o Enem exige que o aluno escreva uma dissertação opinativa, não apenas expositiva.

 Importação de médicos

O Ministério da Saúde estuda a possibilidade de importar médicos de outros países. Essa tentativa, segundo o próprio ministro da saúde, visa amenizar a escassez desses profissionais nas regiões mais carentes. Em contrapartida, muitos protestos contra a possível medida já apareceram em diversos cantos do Brasil. Que tal estudar a polêmica um pouco mais a fundo?

Outros possíveis temas para redação

  • Olimpíadas Brasil 2016;
  • Falta de incentivo ao esporte;
  • Inclusão social dos deficientes;
  • Falta de preparo dos policias no combater ao crime;
  • Transtornos psicológicos entre jovens;
  • Imprudências no trânsito;
  • Cyberbullying, Bullying Verbal, Bullying Físico;
  • Violência contra professores;
  • Geopolítica: papel do Brasil no cenário internacional;
  • A Jornada Mundial da Juventude (" a vinda do papa");
  • Haitianos no Acre;
  • Epidemia do crack;
  • Redução da maioridade penal;

15 de junho de 2015

Redação do ENEM, importantíssimo


Na maioria dos vestibulares e concursos públicos, cobra-se como redação o gênero textual dissertativo-argumentativo. Porém, somente no Exame Nacional do Ensino Médio há um diferencial, que é a Proposta de Intervenção. Por isso ser uma exclusividade do Enem, muitos alunos ainda não entendem o que é pedido e acabam perdendo muitos pontos na redação, já que a proposta de intervenção vale 200 de um total de 1.000!
Dos critérios de avaliação da redação do exame, a quinta competência diz respeito a “elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos”. Mas o que é essa proposta de intervenção? Primeiramente, precisamos entender o que significa “intervenção”. A palavra vem do verbo intervir que, segundo o dicionário Priberam, é:
Intervir: colocar-se entre, vir entre, interromper, sobrevir; tomar parte em (participar); meter-se de permeio; ingerir-se, interferir, interceder.
Dessa forma, a proposta de intervenção é participar do problema discutido na dissertação propondo uma interferência a ele. Em outras palavras, propor uma ação que melhore ou solucione a problemática discutida sobre o tema.
Um detalhe importante é que essa ação proposta deve respeitar os direitos humanos, isto é, respeitar os valores de cidadania, liberdade, solidariedade, igualdade e diversidade. Caso esse termo “Direitos Humanos” te pareça obscuro, sugerimos a leitura desse curto material: Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Como propor intervenção é tratar de algum problema, é mais adequado que ao sugerir a ação, essa questão já tenha sido apresentada e discutida. Por isso, vemos, com mais frequência, a proposta de intervenção vir no último parágrafo da dissertação, após concluir a linha de raciocínio, ou seja, após corroborar (reafirmar) a tese.
Em um próximo artigo, veremos o que, detalhadamente, deve conter na Proposta de Intervenção para conseguir alcançar pontuação máxima nessa competência.

Regência verbal - resumo


Regência Verbal

ASPIRAR

O verbo aspirar pode ser transitivo direto ou transitivo indireto.

Transitivo direto: quando significa “sorver”, “tragar”, “inspirar” e exige complemento sem preposição.

- Ele aspirou o perfume da amada.
- Todos nós gostamos de aspirar o ar do campo.

Transitivo indireto: quando significa “pretender”, “desejar”, “almejar” e exige complemento com a preposição “a”.

- Raul aspirava a uma posição de destaque na empresa.
- Ele sempre aspirou a esse cargo.

Obs: Quando é transitivo indireto não admite a substituição pelos pronomes lhe(s). Devemos substituir por “a ele(s)”, “a ela(s)”.

- Aspiras a este cargo?
- Sim, aspiro a ele. (e não “aspiro-lhe”).

ASSISTIR

O verbo assistir pode ser transitivo indireto, transitivo direto e intransitivo.

Transitivo indireto: quando significa “ver”, “presenciar”, “caber”, “pertencer” e exige complemento com a preposição “a”.

- Assisti a um filme. (ver)
- Ele assistiu ao jogo.
- Este direito assiste aos alunos. (caber)

Transitivo direto: quando significa “socorrer”, “ajudar” e exige complemento sem preposição.

- O médico assiste o ferido. (cuida)

Obs: Nesse caso o verbo “assistir” pode ser usado com a preposição “a”.

- Assistir ao paciente.

Intransitivo: quando significa “morar” exige a preposição “em”.

- O papa assiste no Vaticano. (no: em + o)
- Eu assisto no Rio de Janeiro.

“No Vaticano” e “no Rio de Janeiro” são adjuntos adverbiais de lugar.

CHAMAR


Transitivo direto, quando significar convocar.
- Chamei todos os sócios, para participarem da reunião.

Transitivo indireto, com a preposição POR, quando significar invocar.
- Chamei por você insistentemente, mas não me ouviu.

Transitivo direto e indireto, com a preposição A, quando significar repreender.
- Chamei o menino à atenção, pois estava conversando durante a aula.
- Chamei-o à atenção.

A expressão "chamar a atenção de alguém" não significa repreender, e sim fazer se notado (O cartaz chamava a atenção de todos que por ali passavam)

* Pode ser transitivo direto ou indireto, com a preposição A, quando significar dar qualidade. A qualidade (predicativo do objeto) pode vir precedida da preposição DE, ou não.

- Chamaram-no irresponsável.
- Chamaram-no de irresponsável.
- Chamaram-lhe irresponsável.
- Chamaram-lhe de irresponsável.


VISAR

Pode ser transitivo direto (sem preposição) ou transitivo indireto (com preposição).
Quando significa “dar visto” e “mirar” é transitivo direto.

- O funcionário já visou todos os cheques. (dar visto)
- O arqueiro visou o alvo e atirou. (mirar)

Quando significa “desejar”, “almejar”, “pretender”, “ter em vista” é transitivo indireto e exige a preposição “a”.

- Muitos visavam ao cargo.
- Ele visa ao poder.

Nesse caso não admite o pronome lhe(s) e deverá ser substituído por a ele(s), a ela(s). Ou seja, não se diz: viso-lhe.

Obs: Quando o verbo “visar” é seguido por um infinitivo, a preposição é geralmente omitida.

- Ele visava atingir o posto de comando.

ESQUECER – LEMBRAR 

- Lembrar algo – esquecer algo
- Lembrar-se de algo – esquecer-se de algo (pronominal)

No 1º caso, os verbos são transitivos diretos, ou seja exigem complemento sem preposição.

- Ele esqueceu o livro.

No 2º caso, os verbos são pronominais (-se, -me, etc) e exigem complemento com a preposição “de”. São, portanto, transitivos indiretos.

- Ele se esqueceu do caderno.
- Eu me esqueci da chave.
- Eles se esqueceram da prova.
- Nós nos lembramos de tudo o que aconteceu.

Há uma construção em que a coisa esquecida ou lembrada passa a funcionar como sujeito e o verbo sofre leve alteração de sentido. É uma construção muito rara na língua contemporânea , porém, é fácil encontrá-la em textos clássicos tanto brasileiros como portugueses. Machado de Assis, por exemplo, fez uso dessa construção várias vezes.

- Esqueceu-me a tragédia. (cair no esquecimento)
- Lembrou-me a festa. (vir à lembrança)

O verbo lembrar também pode ser transitivo direto e indireto (lembrar alguma coisa a alguém ou alguém de alguma coisa).

PREFERIR

É transitivo direto e indireto, ou seja, possui um objeto direto (complemento sem preposição) e um objeto indireto (complemento com preposição)

- Prefiro futebol a teatro.
- Prefiro passear a ver TV.

Não é correto dizer: “Prefiro cinema do que teatro”.

SIMPATIZAR e ANTiPATIZAR

Ambos são transitivos indiretos e exigem a preposição “com”.

- Não simpatizei com os alunos.
- Antipatizei com meu vizinho.

QUERER

Pode ser transitivo direto (no sentido de “desejar”) ou transitivo indireto ( no sentido de “ter afeto”, “estimar”).

- A criança quer brincar.
- Quero a meus pais.

NAMORAR 

É transitivo direto, ou seja, não admite preposição.

- Mariana namora Jonas.

Obs: Não é correto dizer: “Maria namora com João”.

OBEDECER e DESOBEDECER

É transitivo indireto, ou seja, exige complemento com a preposição “a” (obedecer/desobedecer a).

- Devemos obedecer aos pais.
- Desobedeceu à mãe.

Obs: embora seja transitivo indireto, esse verbo pode ser usado na voz passiva.

- A fila não foi obedecida.
- A regra foi desobedecida.

VER

É transitivo direto, ou seja, não exige preposição.

- Ele viu o filme.

AGRADAR

No sentido de acariciar ou contentar (pede objeto direto - não tem preposição).

- Agrado minhas filhas o dia inteiro.

- Para agradar o pai, ficou em casa naquele dia.

no sentido de ser agradável, satisfazer (pede objeto indireto - tem preposição "a").

- As medidas econômicas do Presidente nunca agradam ao povo.



ATENDER

Atender pode ser transitivo direto ou indireto, com a preposição a.

- Atenderam o meu pedido prontamente.
- Atenderam ao meu pedido prontamente.

No sentido de deferir ou receber (em algum lugar) pede objeto direto

No sentido de tomar em consideração, prestar atenção pede objeto indireto com a preposição a.

- Atenda ao cliente.

Se o complemento for um pronomes pessoal referente a pessoa, só se emprega a forma objetiva direta (O diretor atendeu os interessados ou aos interessados / O diretor atendeu-os).


CUSTAR

No sentido de ser difícil será transitivo indireto, com a preposição A. Nesse caso, terá como sujeito aquilo que é difícil, nunca a pessoa, que será objeto indireto.

- Custou-me acreditar em Hipocárpio.
- Custa a algumas pessoas permanecer em silêncio.

No sentido de causar transtorno, dar trabalho será intransitivo, com a preposição A.

- Sua irresponsabilidade custou sofrimento a toda a família.

No sentido de ter preço será transitivo direto.

- Estes sapatos custaram R$ 50,00.

MORAR, RESIDIR, SITUAR-SE (Intransitivo)

Seguidos da preposição EM e não com a preposição A, como muitas vezes acontece.

- Moro em Londrina.
- Resido no Jardim Petrópolis.
- Minha casa situa-se na rua Cassiano.


RESPONDER

Transitivo indireto, com a preposição A, quando possuir apenas um complemento.

- Respondi ao bilhete imediatamente.
- Respondeu ao professor com desdém.

Nesse caso, não aceita construção de voz passiva.

Transitivo direto com objeto direto para expressar a resposta (respondeu o quê?)

- Ele apenas respondeu isso e saiu.


REVIDAR (TI)

- Ele revidou ao ataque instintivamente.


COMPARECER (Intransitivo)

- Compareceram na sessão de cinema.
- Compareceram à sessão de cinema.


COMUNICAR (TD e I)

Admite duas construções alternando algo e alguém entre OD e OI.

- Comunico-lhe meu sucesso.
- Comunico meu sucesso a todos.


PAGAR/PERDOAR

a - se tem por complemento uma palavra que denote algo: não exige preposição. 
- Ele pagou a conta do banco.

b - se tem por complemento uma palavra que denote pessoa: é regido pela preposição “a”. 
- Perdoou a todos os inimigos.


CONSISTIR

Tem complemento introduzido pela preposição "em".

- A modernidade verdadeira consiste em direitos iguais para todos.


GOZAR

Transitivo direto ou transitivo indireto com a preposição DE.

- Gozava boa saúde. / Gozava de boa saúde.

SATISFAZER

Transitivo direto ou indireto.

- Era difícil conseguir satisfazê-la. / Era difícil conseguir satisfazer-lhe.

ALMEJAR

Transitivo direto ou indireto.

Almejamos a paz entre as nações. / Almejamos pela paz entre as nações.


COMPARAR

Quando seguido de dois objetos, esse verbo admite as preposições "a" ou "com" para introduzir o complemento indireto.

- Comparei seu comportamento ao (ou com o) de uma criança.

PEDIR


Esse verbo pede objeto direto de coisa (geralmente na forma de oração subordinada substantiva) e indireto de pessoa.

- Pedi-lhe                favores.
  Objeto Indireto    Objeto Direto
                                     
- Pedi-lhe                     que mantivesse em silêncio.
Objeto Indireto           Oração Subordinada Substantiva
                                                           Objetiva Direta

IMPLICAR

1) Como transitivo direto, esse verbo tem dois sentidos:

a) dar a entender, fazer supor, pressupor

- Suas atitudes implicavam um firme propósito.
b) Ter como consequência, trazer como consequência, acarretar, provocar:

- Liberdade de escolha implica amadurecimento político de um povo.

2) Como transitivo direto e indireto, significa comprometer, envolver

- Implicaram aquele jornalista em questões econômicas.

Obs.: no sentido de antipatizar, ter implicância, é transitivo indireto e rege com preposição "com".

- Implicava com quem não trabalhasse arduamente.


PROCEDER

1) Proceder é intransitivo no sentido de ser decisivo, ter cabimento, ter fundamento ou portar-se, comportar-se, agir. Nessa segunda acepção, vem sempre acompanhado de adjunto adverbial de modo.

As afirmações da testemunha procediam, não havia como refutá-las.

- Você procede muito mal.

2) Nos sentidos de ter origem, derivar-se (rege a preposição" de") e fazer, executar (rege complemento introduzido pela preposição "a") é transitivo indireto.

- O avião procede de Maceió.
- Procedeu-se aos exames.
- O delegado procederá ao inquérito.

AJUDAR


Aparece como transitivo direto e transitivo direto e indireto.

- Ela ajudava a minha irmã. Nós ajudávamos papai a limpar o quintal.


Informar, avisar, advertir, certificar, comunicar, lembrar, noticiar, notificar, prevenir:

São verbos transitivos diretos e indiretos, admitindo duas construções:
“Quem informa, informa algo a alguém”;
“Quem informa, informa alguém de/sobre algo.”

- Informamos aos usuários que não nos responsabilizamos por furtos ou roubos.
- Informamos os usuários de que não nos responsabilizamos por furtos ou roubos.


CASAR

Será verbo intransitivo quando por si só apresentar sentido completo.
Eles casaram (ou se casaram – na qualidade de pronome reflexivo).Será verbo transitivo indireto quando requisitar um complemento regido pelo uso da preposição:

- Ele se casou com a melhor amiga.Será verbo transitivo direto e indireto quando requisitar os dois complementos:

- O vizinho casou sua filha com meu primo.

ABDICAR

Pode ser verbo transitivo direto ou indireto, com a preposição de, e também verbo intransitivo.

- O Imperador abdicou o trono.
- O Imperador abdicou do trono.
- O Imperador abdicou.

PROIBIR

Pode ser verbo transitivo direto. Proibir alguma coisa: 
- A lei brasileira proíbe o aborto.

Pode ser verbo transitivo indireto. Proibir alguém de alguma coisa / Proibir alguma coisa a alguém: 

- O pai proibiu o filho de viajar.
- A ANVISA proíbe oferecer premios à indústria farmacêutica.