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24 de junho de 2018

TEMA DE REDAÇÃO


A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-argumentativo na modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema As Utopias: Indispensáveis, inúteis ou nocivas? Apresente proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

TEXTO I

UTOPIA (de ou-topia, lugar inexistente ou, segundo outra leitura, de eu-topia, lugar feliz). Thomas More deu esse nome a uma espécie de romance filosófico (1516), no qual relatava as condições de vida em uma ilha imaginária denominada Utopia: nela, teriam sido abolidas a propriedade privada e a intolerância religiosa, entre outros fatores capazes de gerar desarmonia social. Depois disso, esse termo passou a designar não só qualquer texto semelhante, tanto anterior como posterior (como a República de Platão ou a Cidade do Sol de Campanella), mas também qualquer ideal político, social ou religioso que projete uma nova sociedade, feliz e harmônica, diversa da existente. Em sentido negativo, o termo passou também a ser usado para designar projeto de natureza irrealizável, quimera, fantasia.
(Nicola Abbagnano, Dicionário de Filosofia. Adaptado.)

TEXTO II

A utopia nos distancia da realidade presente, ela nos torna capazes de não mais perceber essa realidade como natural, obrigatória e inescapável. Porém, mais importante ainda, a utopia nos propõe novas realidades possíveis. Ela é a expressão de todas as potencialidades de um grupo que se encontram recalcadas pela ordem vigente.
(Paul Ricoeur. Adaptado.)

TEXTO III

A desaparição da utopia ocasiona um estado de coisas estático, em que o próprio homem se transforma em coisa. Iríamos, então, nos defrontar com o maior paradoxo imaginável: o do homem que, tendo alcançado o mais alto grau de domínio racional da existência, se vê deixado sem nenhum ideal, tornando-se um mero produto de impulsos. O homem iria perder, com o abandono das utopias, a vontade de construir a história e, também, a capacidade de compreendê-la.
(Karl Mannheim. Adaptado.)

TEXTO IV

Acredito que se pode viver sem utopias. Acho até que é melhor, porque as utopias são ao mesmo tempo ineficazes e perigosas. Ineficazes quando permanecem como sonhos; perigosas quando se quer realizá-las.
(André Comte Sponville. Adaptado.)

TEXTO V

Cidade prevista
Irmãos, cantai esse mundo que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais… não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casas sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
Mas ele será um dia
o país de todo homem.
Carlos Drummond de Andrade

TEXTO VI

A utopia não é apenas um gentil projeto difícil de se realizar, como quer uma definição simplista. Mas se nós tomarmos a palavra a sério, na sua verdadeira definição, que é aquela dos grandes textos fundadores, em particular a Utopia de Thomas More, o denominador comum das utopias é seu desejo de construir aqui e agora uma sociedade perfeita, uma cidade ideal, criada sob medida para o novo homem e a seu serviço. Um paraíso terrestre que se traduzirá por uma reconciliação geral: reconciliação dos homens com a natureza e dos homens entre si. Portanto, a utopia é a desaparição das diferenças, do conflito e do acaso: é, assim, um mundo todo fluido – o que supõe um controle total das coisas, dos seres, da natureza e da história. Desse modo, a utopia, quando se quer realizá-la, torna-se necessariamente totalitária, mortal e até genocida. No fundo, só a utopia pode suscitar esses horrores, porque apenas um empreendimento que tem por objetivo a perfeição absoluta, o acesso do homem a um estado superior quase divino, poderia se permitir o emprego de meios tão terríveis para alcançar seus fins. Para a utopia, trata-se de produzir a unidade pela violência, em nome de um ideal tão superior que justifica os piores abusos e o esquecimento da moral reconhecida.

TEMA DE REDAÇÃO

Com o apoio dos três textos abaixo, escreva uma dissertação em prosa, na qual você deverá discutir manifestações concretas de afirmação ou de negação da auto-estima entre os brasileiros. Apresente argumentos que deem sustentação ao ponto de vista que você adotou.

TEXTO I

Está no Dicionário Houaiss:
auto-estima s.f. qualidade de quem se valoriza, se contenta com seu modo de ser e demonstra, consequentemente, confiança em seus atos e julgamentos.
A definição do dicionário parece limitar-se ao âmbito do indivíduo, mas a palavra auto-estima já há algum tempo é associada a uma necessidade coletiva. Por exemplo: nós, brasileiros, precisamos fortalecer nossa auto-estima. Nesse caso, a satisfação com nosso modo de ser, como povo, nos levaria à confiança em nossos atos e julgamentos. Mas talvez seja o caso de perguntar: não são nossos atos e julgamentos que acabam por fortalecer ou enfraquecer nossa auto-estima, como indivíduos ou como povo?

TEXTO II

Estão num poema de Drummond, da década de vinte, os versos:
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
(…)
Aqui ao menos a gente sabe que é tudo uma canalha só.

TEXTO III

Está num artigo do jornalista Zuenir Ventura, de anos atrás:
De um país em crise e cheio de mazelas, onde, segundo o IBGE, quase um quarto da população ganha R$ 4 por dia, o que se esperaria? Que fosse a morada de um povo infeliz, cético e pessimista, não?
Não. Por incrível que pareça, não. Os brasileiros não só consideram seu país um lugar bom e ótimo para viver, como estão otimistas em relação a seu futuro e acreditam que ele se transformará numa superpotência econômica em cinco anos. Pelo menos essa é a conclusão de um levantamento sobre a “utopia brasileira” realizado há pouco pelo Datafolha.

COLOCAÇÃO PRONOMINAL

Julgue C (certo) ou E (errado) os itens abaixo:
1. (   ) O presente é a bigorna onde se forja o futuro.
2. (   ) Nossa vocação molda-se às necessidades.
3. (   ) Se não fosse a chuva, acompanhar-te-ia.
4. (   ) Macacos me mordam!
5. (   ) Caro amigo, muito lhe agradeço o favor…
6. (   ) Ninguém socorreu-nos naqueles momentos difíceis.
7. (   ) As informações que se obtiveram, chocavam-se entre si.
8. (   ) Quem te falou a respeito do caso?
9. (   ) Não foi trabalhar porque machucara- se na véspera.
10. (   ) Não só me trouxe o livro, mas também me deu presente.
11. (   ) Ele chegou e perguntou-me pelo filho.
12. (   ) Em se tratando de esporte, prefere futebol.
13. (   ) Vamos, amigos, cheguem-se aos bons.
14. (   ) O torneio iniciar-se-á no próximo Domingo.
15. (   ) Amanhã dizer-te-ei todas as novidades.
16. (   ) Os alunos nos surpreendem com suas tiradas espirituosas.
17. (   ) Os amigos chegaram e me esperam lá fora.
18. (   ) O torneio iniciará-se no próximo domingo.
19. (   ) oferecida-lhes as explicações, saíram felizes.
20. (   ) Convido-te a fazeres-lhes, essa gentileza.
21. (   ) Para não falar- lhe, resolveu sair cedo.
22. (   ) É possível que o leitor nos não creia.
23. (   ) A turma quer-lhe, fazer uma surpresa.
24. (   ) A turma havia convidado-o para sair.
25. (   ) Ninguém podia ajudar-nos naquela hora.
26. (   ) Algumas haviam-nos contado a verdade.
27. (   ) Todos se estão entendendo bem.
28. (   ) As meninas não tinham nos convidado para sair.
29) Assinale a frase com erro de colocação pronominal:
a) Tudo se acaba com a morte, menos a saudade.
b) Com muito prazer, se soubesse, explicaria-lhe tudo.
c) João tem-se interessado por suas novas atividades.
d) Ele estava preparando-se para o vestibular de Direito.
30) Assinale a frase com erro de colocação pronominal:
a) Tudo me era completamente indiferente.
b) Ela não me deixou concluir a frase.
c) Este casamento não deve realizar-se.
d) Ninguém havia lembrado-me de fazer as reservas.
31. (    )  Quando  se estudaram minuciosamente as propostas, descobriram- se todas as falhas.
32. (    )  Segundo informaram- me na seção, já se encontram prontos os contracheques desta mês.
33. (    )  Os papéis que remeteram-me  estão em ordem, ainda hoje devolvê-los-ei como havia prometido-lhes.
34. (    )  Os professores haviam-nos instruído para as provas.
35. (    )  Nada chegava a impressioná-la em sua passividade.
36. (    )  Que Deus te acompanhe por toda a vida.
37. (    )  Quando lhes entregariam as provas, era um mistério que não lhes era possível desvendar.
38. (    )  A respeito daquelas fraudes, os auditores já haviam prevenido-os há muito tempo.
39. (    )  Os amigos entreolharam- se emocionados, mas não lhes deram mais nenhuma informação.
40. (    )  Aquele foi o livro que lhe eu dei como prova de admiração.
41. (    )  Admirou-me a despesa porque não havias-me dito que o presente iria custar-te tão caro.
42. (    )  Ainda não me havias falado essas injúrias.
43. (    )  Já de pé, banhando-me, ouço-lhe os passos no corredor.
44. (    )  Dir-se-ia que todos preferem-lhe ocultar os fatos.
45. (    )  Os alunos não têm preocupado-se com as provas.
46. (    )  Peça a dar- se- lhe- à o perdão.
47. (    )  Causava-me admiração ver aqueles jovens dedicando-se aos estudos, enquanto outros não se esforçavam nem um pouco.
48. (    )  Nada se faria, se ficassem de braços cruzados.
49. (    )  No caso de não cumprirem o horário das aulas, romperão-se as cláusulas contratuais.
50. (    )  Assim que sentiu-se prejudicado, reclamou seus direitos.
GABARITO
1. C
2. C
3. C
4. C
5. C
6. E
7. C
8. C
9. E
10. C
11. C
12. C
13. C
14. C
15. E
16. C
17. C
18. E
19. E
20. E
21. C
22. C
23. C
24. E
25. C
26. E
27. E
28. E
29. B
30. D
31. C
32. E
33. E
34. C
35. C
36. C
37. C
38. E
39. C
40. C
41. E
42. C
43. C
44. E
45. C
46. E
47. C
48. C
49. E
50. E

18 de junho de 2018

Adjetivos pátrios


Os países dão assunto em gramática, quando pensamos em adjetivos pátrios ou gentílicos. Os adjetivos são a classe de palavras que dão características aos seres e entre as possíveis características está a origem ou proveniência desses seres. Adjetivos Pátrios, portanto, são aqueles que caracterizam as pessoas ou as coisas de acordo com a nacionalidade ou naturalidade, levando em conta países, continentes, cidades, regiões.
Nesta Copa, classificaram-se 32 seleções e os seus respectivos gentílicos são estes:

  • Rússia – russo
  • Brasil – brasileiro
  • Irã  – iraniano ou irânico
  • Japão –  japonês ou nipônico
  • México – mexicano
  • Bélgica – belga
  • Coreia do Sul – sul-coreano
  • Arábia Saudita  – saudita, árabe-saudita
  • Alemanha – alemão, germânico, germano ou teutônico
  • Inglaterra – inglês, anglo, anglo-saxão ou britânico
  • Espanha – espanhol, hispânico
  • Nigéria – nigeriano
  • Costa Rica – costa-riquenho ou costa-riquense
  • Polônia – polonês ou polaco
  • Egito –  egípcio, egipcíaco ou egipciano
  • Islândia – islandês
  • Sérvia – sérvio
  • França – francês
  • Portugal – português ou lusitano
  • Argentina – argentino
  • Colômbia – colombiano
  • Uruguai – uruguaio
  • Panamá – panamenho ou panamense
  • Senegal – senegalês, senegalense ou senegaliano
  • Marrocos – marroquino
  • Tunísia – tunisiano
  • Suíça – suíço
  • Croácia – croata
  • Suécia – sueco
  • Dinamarca – dinamarquês
  • Austrália – australiano
  • Peru – peruano, peruviano
Também é comum se utilizar adjetivos pátrios compostos, ou seja, o ser tem característica de dois lugares ao mesmo tempo. Nesses casos, o primeiro elemento é empregado na forma alatinada (com origem no Latim) e reduzida e o segundo elemento permanece igual e esses termos sempre são separados por hífen.
As formas reduzidas mais comuns são:
  • anglo = inglês
  • euro = europeu
  • franco = francês
  • greco = grego
  • hispano = hispânico ou espanhol
  • luso = lusitano ou português
  • nipo = nipônico ou japonês
  • sino = chinês
  • teuto = teutônico ou alemão
Mas atenção: quando o segundo elemento não é um adjetivo pátrio, o hífen não é admitido, como em afrodescendente ou Eurocopa.
Assim, teremos disputas luso-espanhola, luso-marroquina, hispano-iraniana, hispano-marroquina, franco-australiana (ou australo-francesa), franco-peruana, teuto-mexicana (ou germano-mexicana), nipo-colombiana, nipo-senegalesa, servo-brasileira, anglo-tunisiana, anglo-panamenha e assim vai…

17 de junho de 2018

AVALIAÇÃO DA REDAÇÃO NA UCS

Redação

Para esta Prova, exigir-se-á do candidato a elaboração de um texto dissertativo-argumentativo, no qual estejam presentes.
  • Tese: é o posicionamento crítico, preferencialmente, explícito, a respeito da proposta feita. O ideal é que o candidato responda - posicionando-se - à pergunta que lhe foi feita.
  • Argumento: é a organização das ideias de forma coerente e coesa, que buscarão convencer/persuadir o leitor, pois trará as razões pelas quais o candidato assumiu um posicionamento.
  • Evidências: são as ilustrações - exemplos, dados estatísticos, citações, experiências pessoais - que confirmarão a posição assumida no processo argumentativo. O ideal é que para cada argumento se tenha uma evidência corroborando o ponto de vista assumido.
  • Nova Tese: é a finalização do texto, mas não com uma conclusão decorrente do processo argumentativo (ratifica ou retifica); ela traz uma perspectiva diferente, isto é, uma nova tese.
  • Título: é a síntese de tudo o que foi escrito; anuncia e condensa o que foi escrito.
Observação 
Somente serão avaliadas as redações redigidas em Língua Portuguesa e transcritas, à caneta, de forma legível, para a Folha de Redação. Cada texto é corrigido por dois avaliadores, de maneira individual, sem que um tenha acesso à nota atribuída pelo outro avaliador. Chega-se à nota final, fazendo-se a média entre as duas notas obtidas se não tiver ocorrido discrepância, o que leva a uma terceira correção. Neste caso, vale a nota decorrente da terceira correção. Receberá nota ZERO a Redação em que o candidato tiver fugido do tema ou da tipologia do texto solicitado ou ainda for plágio ou estiver grafada de forma ininteligível, bem como se houver inserções indevidas, tanto no texto como em qualquer local da Folha de Redação.

COMENTÁRIO DO CURSO OBJETIVO SOBRE OS TEMAS DE REDAÇÃO DA UNESP 2018

Tema de redação


A Universidade de Passo Fundo (UPF) divulgou os temas propostos para a Prova de Redação do Vestibular de Inverno 2018. O tema 1 propôs a questão “Com o quadro atual de crise da segurança pública, quais as consequências de uma sociedade fazer “justiça com as próprias mãos”?”, já o tema 2 propôs uma reflexão sobre como “As novas configurações familiares refletem transformações da sociedade brasileira”.

15 de junho de 2018

TEMA DE REDAÇÃO


A Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) aplicou, no último final de semana, a segunda fase do seu vestibular de meio de ano de 2018. Uma das maiores universidades públicas do estado de São Paulo é a única instituição universitária estadual que realiza o chamado “vestibular de inverno”.
Devido a sua importância e por ela, em sua prova de redação, exigir uma dissertação-argumentativa, assim como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), analisamos na coluna de hoje o tema da proposta de redação do seu vestibular de meio de ano de 2018 que foi o seguinte: Liberar o porte de armas de fogo a todos os cidadãos diminuirá a violência no Brasil?
A prova de redação do vestibular da Unesp tem a fama de ser uma verdadeira caixinha de surpresas, pois temas de diversos vieses já foram abordados pela banca elaboradora, desde o tema da amizade até o tema da obrigatoriedade do voto no Brasil, por exemplo. Porém, de umas edições para cá, a prova de redação da Unesp tem abordado temas atuais e relevantes ao dia a dia da sociedade brasileira como um todo, mostrando que a banca elaboradora está afinada com as recentes e atuais discussões.
A referida proposta de redação é composta por três textos, que são os seguintes:
O primeiro texto da coletânea apresenta dados de uma recente pesquisa do Instituto Datafolha, de janeiro deste ano, que mostram que 56% dos entrevistados são contrários ao porte de armas estendido ao cidadão, ou seja, ao civil. Além disso, o excerto retoma o Estatuto do Desarmamento votado, por meio de plebiscito, em 2003, no qual a população votou a favor do desarmamento. Segundo o texto, para alguns, tal Estatuto de nada adiantou na diminuição do índice de violência no Brasil; já para especialistas em segurança, ocorreu justamente o contrário.
O segundo texto da coletânea, por sua vez, de autoria de Gil Alessi, retoma o cenário social brasileiro antes do Estatuto do Desarmamento votado em 2003, no qual, de acordo com dados do Ministério da Saúde e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) havia um alto índice de criminalidade e violência o qual parou de crescer como crescia há 15 anos.
O jornalista volta ao presente ao citar que há, em Brasília, um grupo de deputados federais e de senadores – a “bancada da bala” – que é a favor do armamento da população civil, juntamente com alguns setores da sociedade. Lembrando que estamos em um ano de eleições federais, tal texto, obviamente, não foi escolhido aleatoriamente pela banca elaboradora.
Gil Alessi usa o argumento de Daniel Cerqueira, pesquisador do IPEA, de que a grave crise econômica da década de 80 ajudou a aprofundar o abismo da criminalidade e a aumentar a violência, já que foi uma época em que a venda de armas de fogo aumentou no Brasil. Para ele, quanto mais medo, mais armas; quanto mais armas, mais mortes.
Por outro lado, o texto apresenta uma opinião contrária: Benê Barbosa, militante pró-armas brasileiro, afirma que, naquela época, havia mais segurança e que o Estatuto do Desarmamento “elitizou” o porte de armas.
Já o terceiro e último texto da coletânea é uma adaptação de uma matéria veiculada na revista Época em 2015 e há duas opiniões distintas sobre a liberação das armas de fogo.
Analisando a coletânea de textos, concluímos que há um certo equilíbrio entre as opiniões favoráveis e contrárias à liberação do porte de armas de fogo no Brasil, mas a pergunta tema da proposta de redação é se essa liberação diminuirá a violência no país. Deste modo, não basta o candidato opinar e argumentar sobre a liberação ou não do porte de armas de fogo, mas também opinar e argumentar sobre a relação dessa liberação com a violência.

11 de junho de 2018

Atenção à gramática na hora da escrita


Os termos considerados essenciais para a estruturação dos períodos são o sujeito e o predicado. Entende-se por sujeito o ser sobre quem a frase declara algo e por predicado aquilo que se declara a respeito do sujeito. Essa é, de modo geral, a definição encontrada nas gramáticas.
Após a definição, essas obras apresentam a classificação do sujeito: simples, composto, oculto (ou elíptico ou desinencial), indeterminado e inexistente. E aí começa o ‘nó’ – existe um sujeito inexistente!
As gramáticas mais preocupadas com a lógica evitam a denominação ‘sujeito inexistente’, preferindo denominar o enunciado como oração sem sujeito. Evanildo Bechara, na sua Moderna Gramática Portuguesa, afirma que o único elemento indispensável nos enunciados é o verbo, o qual é a base de uma relação predicativa (sujeito + predicado). Mas afirma também que pode haver uma relação referida a um sujeito, e nesse caso a oração apresenta um sujeito (explícito ou não) e uma relação não-referida, ou seja, a informação do predicado não diz respeito a um sujeito.
Nos casos de oração sem sujeito, o verbo deverá, então estar flexionado na 3ª pessoa. Vamos no lembrar dos elementos da comunicação: o emissor é a 1ª pessoa; o receptor é a 2ª pessoa; e a 3ª pessoa é o referente ou assunto, é uma ‘não- pessoa’, nas palavras de Bechara: “(…) é a não-eu nem meu interlocutor, e assim é a forma utilizada para indicar a relação predicativa não-referida, isto é, as orações sem sujeito.”(na obra citada, p.408) E os verbos dessas construções são classificados como verbos impessoais, já que não estão relacionados nem ao emissor, nem ao receptor das mensagens.
Na prática, teremos oração sem sujeito quando o enunciado apresentar:
  • Verbo HAVER, no sentido de existência, ocorrência ou indicação de tempo passado:
    Eu nasci / há dez mil anos atrás / e não tem nada nesse mundo / que eu não saiba demais  (lembrando que aqui ocorre um pleonasmo por causa do acréscimo do termo ‘atrás’)
  • Verbo FAZER, indicando tempo:
    Faz 3 noites que eu não durmo
    Pois perdi o meu galinho
    Coitadinho o la lá
    Pobrezinho o la lá
    Eu perdi lá no jardim

    Verbos que indicam fenômenos da natureza:
    Chove lá fora e aqui, tá tanto frio 
  • Verbo SER indicando horas, data ou distância (nestes casos o verbo pode estar no singular ou no plural, de acordo com as quantidades):
    São três horas da manhã, você me liga
    Pra falar coisas que só a gente entende
    Era 1º de abril e as brincadeiras aconteciam em todo lado.
    Daqui até a praça são 200 metros.
A linguagem coloquial nem sempre observa essas regras gramaticais e é frequente o emprego do verbo TER no lugar do HAVER, como ocorre nestas canções:
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar

É um emprego que pode ocorrer apenas em situações informais de comunicação, portanto cuidado na hora de fazer as redações!

8 de junho de 2018

TEMA DE REDAÇÃO

No último fim de semana foi realizado o vestibular 2018 da Universidade de Brasília (UnB), cuja prova de redação teve como tema “A pressa nossa de cada dia: o tempo na contemporaneidade“. Os candidatos tiveram como tarefa a escrita de um texto expositivo-argumentativo na modalidade padrão da língua escrita e, por esse motivo, analisamos esta prova na coluna desta quinta-feira.
A coletânea de texto desta prova de redação contém cinco textos, sendo dois deles em linguagem não-verbal, já que um deles é uma foto de Maurício Ricardo Chiminazzo e o outro é uma ilustração de Elena Ferrándiz; cada um acompanha, digamos assim, um texto verbal da coletânea e todos serão dispostos juntos logo abaixo.
O primeiro texto da coletânea textual é um fragmento adaptado do livro Os grandes escritos anarquistas, de George Woodcock, sobre a ditadura do relógio. Leia abaixo:
Não há nada que diferencie tanto a sociedade ocidental de nossos dias das sociedades mais antigas da Europa e do Oriente do que o conceito de tempo. Tanto para os antigos gregos e chineses quanto para os nômades árabes ou para o peão mexicano de hoje, o tempo é representado pelos processos cíclicos da natureza, pela sucessão dos dias e das noites, pela passagem das estações. Os nômades e os fazendeiros costumavam medir – e ainda hoje o fazem – seu dia do amanhecer até o crepúsculo e os anos em termos de tempo de plantar e de colher, das folhas que caem e do gelo derretendo nos lagos e rios. O homem do campo trabalhava em harmonia com os elementos, como um artesão, durante tanto tempo quanto julgasse necessário. O homem ocidental civilizado, entretanto, vive num mundo que gira de acordo com os símbolos mecânicos e matemáticos das horas marcadas pelo relógio. É ele que vai determinar seus movimentos e dificultar suas ações. O relógio transformou o tempo, transformando-o de um processo natural em uma mercadoria que pode ser comprada, vendida e medida como um sabonete ou um punhado de passas de uvas. Se não houvesse um meio para marcar as horas com exatidão, o capitalismo industrial nunca poderia ter se desenvolvido, nem teria continuado a explorar os trabalhadores. O relógio representa um elemento de ditadura mecânica na vida do homem moderno, mais poderoso do que qualquer outro explorador isolado ou do que qualquer outra máquina.
O homem que não conseguir ajustar-se deve enfrentar a desaprovação da sociedade e a ruína econômica – a menos que abandone tudo, passando a ser um dissidente para o qual o tempo deixa de ser importante. O operário transforma-se em um especialista em “olhar o relógio”, preocupado apenas em saber quando poderá escapar para gozar as escassas e monótonas formas de lazer que a sociedade industrial lhe proporciona; para “matar o tempo”, programará tantas atividades mecânicas com tempo marcado – como ir ao cinema, ouvir rádio e ler jornais – quanto permitir o seu salário e o seu cansaço. Agora são os movimentos do relógio que vão determinar o ritmo da vida do ser humano.
O texto começa comentando as diferentes formas de se medir o tempo ao redor do mundo e de acordo com os costumes e tradições dos povos, levando em conta suas atividades agrícolas e culturais e como isso foi mudando com o passar do tempo propriamente dito. Hoje não vemos nem medimos o tempo como os povos antigos, tanto da Europa quanto do Oriente, faziam; o autor afirma que vivemos, atualmente, em função do relógio e que é por isso, inclusive, que o capitalismo industrial encontrou um terreno fértil para se expandir.
O que Woodcock denomina de “ditadura do relógio” não controla, apenas, as relações de trabalho e a produção industrial, mas também, segundo sua visão, controla o nosso lazer, o nosso “tempo livre” ou as nossas “horas vagas” (onde está o ócio, inclusive o criativo, lhes pergunto).
Vindo de um autor cuja principal obra é uma grande sinopse do anarquismo, não poderia ser diferente e este é um ponto crucial para a escrita deste texto expositivo-argumentativo, já que o anarquismo é uma teoria social e um movimento político que surgiu no século XIX e que sustenta a ideia de uma sociedade que exista independentemente de um Estado, que é, por sua vez, considerado nocivo e dispensável; nesse sentido, os anarquistas combatem o poder vigente, a ordem social estabelecida e os costumes reinantes.
O candidato que estabeleceu esta relação entre anarquismo, capitalismo industrial, tempo e “ditadura do relógio” (ordem social e um costume reinante) provavelmente escreveu um texto acima da média, pois estabeleceu uma relação entre o que teorias sociais distintas “pensam” sobre o mesmo tema: o tempo na contemporaneidade. Obviamente que, para tanto, o candidato precisa ter também um conhecimento prévio sobre anarquismo e capitalismo.
Deste modo, o que parecia, num primeiro momento, ser um tema de prova de redação filosófico torna-se um tema social e político.
O segundo texto da coletânea é um poema de Alberto Caeiro, alter ego do poeta português Fernando Pessoa, acompanhado da foto de Maurício Ricardo Chiminazzo. Veja abaixo:
Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes. (…)
(CAEIRO, Alberto. In: Poemas Inconjuntos. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br)
Disponível em http://www.gilsoncamargo.com.br/blog/somos-livres-fotografias-mauricio-chiminazzo/. Acesso em 07/06/2018
A foto de Maurício Ricardo Chiminazzo faz parte de uma exposição do fotógrafo intitulada “Somos Livres?” que questiona se realmente somos indivíduos livres e não presos ao tempo, por exemplo. Em paralelo, o poema de Alberto Caeiro questiona o que seria viver só no presente, a medida do tempo, o passado e o futuro etc.
Já o quarto texto da coletânea textual é um trecho sobre o que Norbert Elias (sociólogo alemão, judeu) afirmou sobre o aprendizado das crianças sobre o tempo:
Norbert Elias afirma que são necessários vários anos para aprender o que o tempo realmente é. Crianças levam nove anos para aprender a compreender os complicados mecanismos de representação do tempo, os relógios. Para o autor, é interessante, ainda, como, uma vez que o processo termina, as pessoas tendem a esquecer-se de como foi complexo entender o mecanismo do “tempo”.
(In: Kant e-Prints. Campinas, Série 2, v. 4, n. 1, p. 109-119, jan. – jun./2009. Traduzido e adaptado.)

A ilustração de Elena Ferrándiz combina muito bem com o texto sobre Norbert Elias, pois ambos abordam como aprisionamos a infância e as crianças na ditadura do relógio exposta pelo primeiro texto da coletânea textual. Norbert Elias afirmava que a criança leva nove anos para aprender os mecanismos de representação do tempo para, no fim, ficar presa nele, como a ilustração mostra: uma menina presa numa ampulheta, um dos primeiro meios de medir o tempo.
Desta forma, todos os textos da proposta de redação estão relacionados a fim de questionar a nossa pressa de cada dia que começa na infância e só acaba na morte. Isso também contribui para a nítida e constante sensação de que, a cada dia que passa, os dias passam mais rápido e que tudo parece mais líquido, como dizia Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês.
Além disso, quais seriam as possíveis consequências desta nossa rápida relação com o tempo na atualidade?

1 de junho de 2018

Redação no Enem: evite a Incoerência


O movimento intitulado “greve dos caminhoneiros” parou o Brasil nos últimos dias e gerou um grande movimento da mídia e nas redes sociais. A imprensa tem acompanhado de perto a mobilização dos caminheiros (e agora dos petroleiros) e as redes sociais ganharam mais volume ainda com discussões, debates e postagens favoráveis e contrárias à greve; nada mais comum em um estado democrático de direito no qual há liberdade de imprensa e liberdade de expressão.
Até podemos refletir sobre todos os aspectos envolvidos neste movimento (papel do Estado, papel das grandes empresas de transporte, papel dos caminheiros autônomos, papel da Petrobrás e sua política de preços, a questão do petróleo e da nossa completa dependência do sistema rodoviário em detrimento do sistema ferroviário, justamente a favor dos interesses da indústria automobilística etc.) e, de maneira transdisciplinar, pensarmos sobre como tudo isso poderá ser cobrado em vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio. Professores de História, Geografia, Ciências Sociais e Filosofia têm em mãos uma gama de temas a tratar com seus alunos.
Já no que concerne a Língua Portuguesa, meus colegas de profissão têm em mãos uma gama de discursos para analisar; aliás, os analistas do discursos estão com um prato cheio para várias pesquisas.
Nestes últimos dias, tivemos contato com discursos vindos das mais variadas fontes e dos mais diversos enunciadores, cada um representando um contexto diferente, intenções distintas e objetivos idem.
No entanto, no meio de tantos discursos, um chamou mais a atenção. Caminheiros e pessoas que apoiam a greve e a manifestação pedindo “intervenção militar já“. Eis a incoerência do ano, talvez do século, já que greves e manifestações são asseguradas apenas no regime democrático, pois em uma ditadura, elas são proibidas e, quando aconteciam, no caso da ditadura militar brasileira, eram combatidas com muita violência e seus praticantes, considerados subversivos, eram presos, torturados e mortos.
É muito fácil, em uma democracia, pedir intervenção militar; por outro lado, em uma intervenção militar pedir democracia, é muito difícil. Em uma intervenção militar, não há liberdade de imprensa nem de expressão; redes sociais são proibidas em países com regimes ditatoriais. Deste modo, as pessoas que pedem intervenção militar, caso seu desejo seja realizado, não terão mais espaço virtual para expor suas opiniões. Só na democracia há espaço para expressarmos nossas opiniões, mesmo que elas expressem a maior incoerência do mundo.
Caminhoneiros reivindicando intervenção militar durante a greve.
Além disso, muitas pessoas têm confundido opinião com fatos e essa confusão é muito perigosa, inclusive numa prova de redação. Opinião sem argumentação de nada vale, como já falamos nesta coluna pelo menos uma dezena de vezes; agora, opinião baseada em mentiras, em informações falsas, em fake news valem menos ainda.
As pessoas quem pedem “intervenção militar já” ou não sabem o que realmente aconteceu ao longo do regime militar brasileiro ou ignoram as verdades e pensam que esta é uma solução mágica.
Há quem diga que a ditadura militar brasileira foi um dos governos mais idôneos do país, que não existia violência, que a educação era maravilhosa etc. Talvez essas pessoas não saibam dos fatos: os militares daquela época deixaram o Brasil com um índice de 240% de inflação, o que também culminou em um abismo na desigualdade social, pois os mais pobres ficaram com os salários mais desvalorizados, com metade da população na linha da miséria. Em relação à corrupção, como não havia liberdade de imprensa (jornalistas considerados subversivos eram perseguidos, presos, torturados e mortos), os casos eram escondidos e não eram investigados.
Mais fatos: a partir da saída do presidente João Goulart, instaurou-se, gradativamente, um regime de opressão e de total extinção dos direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros. Tal repressão chegou às salas de aula; professores e alunos contrários ao regime foram perseguidos, presos, torturados e mortos. Livros foram proibidos, como na época da Inquisição da Igreja Católica, principalmente obras de filosofia, sociologia, história, geopolítica e literatura considerada subversiva.
Tais matérias foram extintas do currículo e disciplinas como Educação Moral e Cívica, puramente nacionalistas ao extremos, foram criadas com o objetivo de distorcer e aniquilar qualquer reflexão por parte dos estudantes, além de enaltecer os militares e o regime ditatorial.
Caso alguém seja favorável ao regime militar, não deve ser favorável à manifestações e greves de qualquer natureza, de qualquer categoria de trabalhadores. Ser favorável à intervenção militar e favorável à greve é uma incoerência gigantesca, no mínimo. Opinião não é fato; não é porque pensa-se de determinada maneira que essa maneira é a correta. Não basta opinar, tem de argumentar baseado em fatos verdadeiros; em relação à ditadura brasileira, eis alguns fatos acima.
Tem dúvidas sobre o regime militar do Brasil? Procure seu professor de História, de Geografia, de Sociologia e de Filosofia: todos esses, mas principalmente o de História, podem lhe ajudar a entender melhor esse período, dando aulas, indicando livros etc