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20 de julho de 2018

Sujeito indeterminado

Tradicionalmente, o estudo do sujeito indeterminado no português é tratado de maneira muito superficial pelas gramáticas, as quais limitam-se a dizer que o sujeito indeterminado é aquele que não se conhece ou não se quer identificar, podendo ser expresso ou pela 3ª pessoa do plural dos verbos, ou pela 3ª pessoa do singular dos verbos seguida do pronome ou índice de indeterminação do sujeito se, ou ainda, de acordo com uns poucos gramáticos pela 3ª pessoa do singular sozinha.
O objetivo deste trabalho é levantar os diferentes tipos de sujeito indeterminado que ocorrem no português, seus fatores determinantes e suas funções, bem como tópicos relacionados. Além disso, intentamos fazer um estudo comparativo das expressões do sujeito indeterminado no português.

2 - SUJEITO INDETERMINADO EXPRESSO PELA 3ª PESSOA DO PLURAL
Esse tipo de sujeito indeterminado distingue-se dos demais pelo fato de não admitir a inclusão da 1ª e da 2ª pessoas do verbo como possibilidade de determinação do sujeito. É como se o falante dissesse: “alguém, que não eu ou você, é o responsável pela situação descrita no predicado” ou “mesmo que eu ou você sejamos o responsável pala situação descrita no predicado, eu me isento e isento você, tacitamente, desta responsabilidade, imputando-a, necessariamente, a uma outra entidade”, ou ainda “eu acho que foi você o responsável pela situação descrita no predicado e, ao usar este tipo de sujeito indeterminado, estou fazendo uma acusação indireta, que me poupa dos dissabores associados a uma acusação direta” (nesse caso, o sujeito indeterminado é geralmente seguido de uma pergunta inquisitiva, do tipo: “Você tem alguma idéia de quem foi?”) . Observe-se os exemplos a seguir:
1) Quebraram a vidraça da Dona Maria.
2) Roubaram meu talão de cheques.
3) Andam pichando os muros lá de casa. Você tem alguma idéia de quem poderá ser?
4) Não votaram no FHC, agora ’guenta!
No exemplo nº 1, provavelmente foi o próprio falante que quebrou a vidraça; no entanto, ele usa o sujeito indeterminado de 3ª pessoa do plural para se eximir da culpa e de uma possível punição.
No exemplo nº 2, o falante está relatando um fato lastimável que lhe aconteceu; a exclusão do ouvinte como possibilidade de determinação do sujeito faz-se necessário, porque sua inclusão seria por demais ofensiva.
No exemplo nº 3, o falante suspeita do ouvinte ou de alguém a ele ligado, porém opta por uma acusação indireta, reforçada pela pergunta final.
No exemplo nº 4, o falante se posiciona decididamente como não pertencendo ao grupo que votou no FHC, o que é reforçado pela ironia final, expressa através de um outro tipo de sujeito indeterminado, que admite a inclusão do falante como possibilidade de determinação do sujeito indeterminado, como veremos mais adiante.

3- SUJEITO INDETERMINADO EXPRESSO PELA 3ª PESSOA DO SINGULAR + SE
Ao contrário do tipo anterior, o sujeito indeterminado expresso pela 3ª pessoa do singular do verbo acompanhada do pronome ou índice de indeterminação do sujeito se como que enfatiza a inclusão da 1ª e da 2ª pessoas do verbo como possibilidade de determinação do sujeito. É como se o falante dissesse: “qualquer um, inclusive eu ou você, poderia ser o sujeito da situação descrita no predicado” ou “mesmo que eu ou você não sejamos o sujeito da situação descrita no predicado, eu me sinto envolvido, ou sinto que você está envolvido, emocional e psicologicamente, na situação descrita pelo predicado”. Observe-se os seguintes exemplos:
5) Precisa-se de empregados.
6) Vive-se bem aqui.
7) Espera-se para breve a retirada dos militares indonésios do Timor Leste.
8) Note-se como eles são semelhantes.
No exemplo 5, o sujeito indeterminado praticamente equivale ao sujeito nós, podendo a sentença perfeitamente ser substituída por “Precisamos de empregados”.
No exemplo 6, o falante manifesta, tacitamente, seu desejo de incluir-se entre aqueles que “vivem bem” num determinado lugar. Mesmo que invertêssemos a frase, a inclusão do falante como possibilidade de determinação do sujeito se justificaria, porque então a frase “Vive-se mal aqui” implicaria um certo grau de envolvimento ou de simpatia do falante para com os moradores do lugar.
No exemplo 7, temos de novo o envolvimento do falante com a situação descrita pelo predicado, dessa vez expressa na esperança de uma solução menos cruenta para o conflito no Timor Leste.
No exemplo 8, a inclusão do ouvinte como uma possibilidade de determinação do sujeito é bastante nítida; a sentença poderia facilmente ser substituída por uma sentença imperativa, como: “Notem!” ou “Notai!”.

4- SUJEITO INDETERMINADO EXPRESSO PELA 3ª PESSOA DO SINGULAR
Na variante coloquial do português, costuma-se usar, com alguma freqüência, o verbo na 3ª pessoa do singular somente para expressar o sujeito indeterminado. Esse tipo de sujeito indeterminado difere dos dois anteriores porque ele não exclui a possibilidade de determinação do sujeito pela 1ª e 2ª pessoas do verbo, mas também não enfatiza essa possibilidade. Seria uma forma de expressar o sujeito indeterminado neutra, sem envolvimento. Atente-se, no entanto, que este tipo de sujeito indeterminado tem um caráter nitidamente coloquial, sendo seu uso muito raro no discurso formal. Confira-se os seguintes exemplos:
9) Diz que a Gracinha vai casar.
10) Atura! Quem mandou votar no homem?
No exemplo 9, praticamente se exclui a possibilidade de determinação do sujeito pela 1ª e 2ª pessoas do verbo; já no exemplo 10, assim como no exemplo 4 citado acima, o uso da 3ª pessoa do singular do verbo: Atura!; ’Güenta!, não exclui, de forma alguma, o falante ou o ouvinte como possibilidades de determinação do sujeito, podendo facilmente por “A gente atura/’güenta!” ou “Você atura/ ’güenta!”.

5- SUJEITO INDETERMINADO EXPRESSO PELA FORMA DO VERBO
Vários lingüistas consideram o infinitivo impessoal, quando não associado a um sujeito que se pode deduzir do contexto, como um tipo de sujeito indeterminado. Na verdade, o infinitivo dos verbos, principalmente quando usado com valor de substantivo, é o tipo mais comum e mais neutro de sujeito indeterminado, podendo ser usado em qualquer variante do português: diatópica, diastrática ou diafásica. Repare-se nos seguintes exemplos:
11) Ser ou não ser; eis a questão! (W. Shakespeare)
12) Viver é fácil de olhos fechados! (J. Lennon)
13) Navegar é preciso, viver não é preciso! (F. Pessoa)
Em todos esses três exemplos, a possibilidade de determinação do sujeito é total; os sujeitos de ser no exemplo 11, de viver no exemplo 12 e de navegar e viver no exemplo 13 podem ser qualquer pessoa, inclusive a 1ª ou a 2ª pessoas do verbo, mas sem que haja envolvimento ou expectativa, ou seja, tanto faz que seja eu ou você ou qualquer outra pessoa o sujeito do verbo, o importante é um sujeito indeterminado qualquer serviver ou navegar.
gerúndio, outra forma nominal do verbo, também pode expressar sujeito indeterminado em raras ocasiões, como nos exemplos abaixo:
14) A vida deve ser maravilhosa, sendo rico.
15) Trabalhando não se fica rico.
Nos exemplos acima, o gerúndio não só expressa sujeito indeterminado, como tem um valor adverbial condicional (exemplo 14) ou modal (exemplo 15).

6- VARIANTES COLOQUIAIS DE EXPRESSÃO DO SUJEITO INDETERMINADO
Atualmente, várias formas coloquiais de expressão do sujeito indeterminado vieram se somar aos tipos estudados anteriormente. A professora Hilma Ranauro enfatizou, em recente palestra proferida na UERJ, o uso do pronome você como sujeito indeterminado. Outras forma anotadas até agora são nêgoneguinhomoleque e vagabundo, as duas últimas de uso bem mais restrito, Observe-se os exemplos seguintes:
16) Hoje em dia, com o desemprego, você não sabe o dia de amanhã!
17) Você se esforça, se esforça, e nada!
18) Nêgo não quer trabalhar, só quer ficar zoando.
19) Neguinho vem pra escola só pra ficar de gracinha.
20) Vagabundo mau!
Nos exemplos 16 e 17, o uso da palavra você tanto pode indicar você como qualquer outra pessoa, inclusive, muitas vezes, o próprio falante.
Tanto a palavra nêgo, no exemplo 18, quanto à palavra neguinho, no exemplo 19, servem para expressar sujeito indeterminado, só que elas não admitem o falante como possibilidade de determinação do sujeito e contêm um certo tom pejorativo.
A palavra vagabundo é usada para expressar sujeito indeterminado em certas ameaças veladas e ironias cruéis, principalmente nas sentenças: “Vagabundo é mau!” e “Vagabundo não refresca!”. Ela admite o falante, mas não o ouvinte, como possibilidade de determinação do sujeito.

7- FUNÇÕES DO SUJEITO INDETERMINADO
As principais funções do sujeito indeterminado são:
a) expressar uma situação da qual desconhecemos quem seja o sujeito;
b) expressar uma situação na qual não nos interessa, ou nos prejudicaria, identificar o sujeito;
c) expressar uma situação simplesmente, sem nos importarmos em identificar o sujeito;
d) expressar uma situação sem identificar o sujeito, mas excluindo-nos e ao ouvinte da possibilidade de ser o sujeito ou de estar envolvido com ele;
e) expressar uma situação sem identificar o sujeito, mas demonstrando nosso envolvimento, ou o do ouvinte, com ele.
As sentenças abaixo servem como exemplo para cada uma dessas funções do sujeito indeterminado:
21) Batem à porta!
22) Mataram o João na pracinha.
23) Acabaram com a cerveja.
24) Falaram mal da Joaninha.
25) Vive-se um novo tempo de liberdade.
Cabe notar, nesse ponto do nosso estudo, que a insistência da gramática tradicional pelo uso da passiva sintética em lugar do sujeito indeterminado, com recomendações à feição do Appendix Probi: “Vendem-se pipas” e não “Vende-se pipas”, “Consertam-se freios” e não “Conserta-se freios”, não têm qualquer justificativa lingüística, já que tanto o sujeito indeterminado quanto à passiva sintéticosão estratégias lingüísticas e estilísticas de supressão do elemento com função de sujeito, constituindo, no nível da estrutura profunda, uma única sentença.
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