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18 de junho de 2017

VÍCIOS DE LINGUAGEM

Como se sabe, os vestibulares, concursos e outros processos seletivos exigem dos candidatos um bom domínio da norma culta da Língua Portuguesa. Esse domínio pode ser cobrado por meio de questões objetivas, dissertativas ou redações e ao desrespeito às regras da norma culta denominamos ‘desvios’ ou ‘vícios de linguagem’, os quais podem se dar no nível da pronúncia/sonoridade, da grafia, da semântica ou da sintaxe.
Escritores podem lançar mão desses desvios intencionalmente. É o que chamamos de licença poética, mas aos alunos ‘espertinhos’ deixamos claro que para usar intencionalmente um ‘erro’ é preciso conhecer muito bem a norma e deixar evidente que ali há uma crítica, uma ironia, ou o gatilho para um efeito humorístico. É o que ocorre na música “Inútil”, do grupo Ultraje A Rigor:
A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente
A gente não sabemos nem escovar os dente
Tem gringo pensando que nóis é indigente
Há, na canção, um solecismo de concordância, mas intencional, para evidenciar a falta de autonomia, de competência na realização de tarefas e processos importantes.
Um dos desvios que corrijo com frequência nas redações é o uso equivocado do termo ‘independente’ pelo ‘independentemente’ – um barbarismo de morfologia, causado, provavelmente, pela hipercorreção (é a correção daquilo que já estava correto, pelo fato de o correto não ‘soar bem’ aos ouvidos do produtor do texto). Independente é adjetivo, independentemente é advérbio (=de modo independente), então deveremos dizer que “O acidente ocorreu independentemente da habilidade do motorista.” Ocorre um eco nesse advérbio que não parece adequado, daí algumas pessoas suprimirem o sufixo.
Vejamos outros exemplos de vícios a serem evitados nos textos:
  • Eco: Repetição desagradável de terminações iguais.
    Odete, Claudete e Elisabete foram à lanchonete e comeram omelete.
    Em tempo: O eco é considerado um vício, um defeito na prosa, mas na poesia é o fundamento da rima.
  • Cacófato: Na junção das palavras, cria-se som desagradável, obsceno.
    Juca ganhou. Vou-me já. Ele marca gol. Deu um beijo na boca dela.
  • Preciosismo: exagero na linguagem, prolixidade. É o “falar difícil”, que torna complicada a compreensão para o ouvinte/leitor, parece pedante, forçado e artificial. Será vício se o contexto, a situação de comunicação, ou o conhecimento linguístico do receptor não comportarem um rigor tamanho na linguagem. Nas redações, a prolixidade vai contra a objetividade exigida pelos exames e pode ser penalizada, se os termos ‘destoarem’ do padrão do texto.
Para descontrair, veja algumas frases coloquiais ‘tingidas’ com as cores do preciosismo:
  1. Retirar o filhote de equino da perturbação pluviométrica.
  2. A bucéfalo de oferendas não se perquire formação odontológica
  3. Colóquio sonolento para bovino repousar.
  4. Derrubar, com a extremidade do membro inferior, o suporte sustentáculo de uma das unidades de acampamento.
  5. Aplicar a contravenção do Dr. João, deficiente físico de um dos membros superiores.
  6. Sequer considerar a possibilidade da fêmea bovina expirar fortes contrações laringo-bucais.
  7. Derramar água pelo chão através do tombamento violento e premeditado de seu recipiente.
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