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12 de março de 2017

INTERESSANTÍSSIMO

(…) Quando eu estava pra nascer
De vez em quando eu ouvia
Eu ouvia a mãe dizer
‘Ai, meu Deus, como eu queria
Que esse cabra fosse homem
Cabra macho pra danar’
Ah! Mamãe, aqui estou eu
Mamãe, aqui estou eu
Sou homem com H
E como sou (…)
A música “Homem com H”, interpretada magistralmente por Ney Matogrosso, apresenta a letra H como ‘garantia da masculinidade’ do eu lírico. Do ponto de vista gramatical, isso não faz sentido nem diferença (aliás, não deveria fazer diferença em contexto algum…)
Apesar de não representar nenhum som, a letra H exerce três papéis na língua portuguesa moderna:
a) forma dígrafo com as letras “c”, “l” e “n” (como em “chácara”, “velho” e “lenha”); b) representa aspiração mais ou menos forte (aspiração é a pronúncia com um ‘soprinho’, como ‘house’ ou ‘horse’ do inglês), em interjeições e onomatopeias (como em “hein”, “hum”, “hã”, “ah”, “oh”…);
c) é marca da etimologia (origem), no início de diversas das nossas palavras (“homem”, “herói”, “hábil”, “habitar”, “hermético”, “hoje” etc.).
Assim, apesar de ser uma letra muda (não tem fonema correspondente), o H é bastante ‘eloquente’: é capaz de nos informar que determinada palavra é originária do grego e passou direto ao português (pela via erudita, científica ou eclesiástica) ou veio do grego, foi incorporada pelo latim e só então chegou ao português.
Muitas vezes, ao fazer esse percurso histórico (‘histórico’ com H inicial, pois é termo grego), as palavras depararam-se com ‘entroncamentos’ no caminho e acabaram chegando de duas maneiras. Quando tomaram a via popular (palavras muito usuais que chegaram até nós vindas do latim vulgar), frequentemente perderam o H pelo percurso, conforme a pronúncia aspirada foi deixando de ser percebida. Foi o que ocorreu com ‘erva’, que veio do latim herba. Por ser palavra do cotidiano perdeu a letra inicial e sofreu alteração da consoante ‘b’ para ‘v’ (troca ainda hoje verificada nas diversas variantes linguísticas como em ‘assobio/assovio’).
No entanto, os termos mais eruditos mantiveram a forma mais próxima do latim: herbívoro, herbáceo, herbicida, herbanário etc.
Vejamos as demais situações em que é preciso atenção para o uso ou não dessa letra. De acordo com a Base II do Acordo Ortográfico,
“(…)
2º) O h inicial suprime-se:
a) Quando, apesar da etimologia, a sua supressão está inteiramente consagrada pelo uso: erva, em vez de herva; e, portanto, ervaçal, ervanário, ervoso (em contraste com herbáceo, herbanário, herboso, formas de origem erudita);
b) Quando, por via de composição, passa a interior e o elemento em que figura se aglutina ao precedente: biebdomadário, desarmonia, desumano, exaurir, inábil, lobisomem, reabilitar, reaver;
3º) O h inicial mantém-se, no entanto, quando, numa palavra composta, pertence a um elemento que está ligado ao anterior por meio de hífen: anti-higiénico/anti-higiênico, contra-haste; pré-história, sobre-humano. (…)”
Até a próxima hebdômada! (com H inicial pois veio do grego e é o termo para ‘período de sete dias’)
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