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5 de setembro de 2016

Neologismos



Dia desses um ex-aluno me fez a pergunta que deu origem ao título do artigo de hoje. A propósito da criatividade do seu filho, o genial Otávio, ele ficou curioso sobre o processo de ampliação do léxico oficial e como as ‘invenções’ fazem parte disso tudo.
Comecemos entendendo o termo: neologismo é uma palavra nova, que pode ser criada pelos usuários do idioma de diferentes maneiras:
  • pela junção de palavras ou ‘pedaços’, dentro da lógica da língua (empregando possibilidades que a própria língua oferece, como prefixos e sufixos);
  • pela elipse de termos dentro de uma expressão;
  • pela ‘invenção’ de termo para ‘batizar’ uma inovação tecnológica, a qual precisará de designação.
“Para que o uso do neologismo se torne efetivo, é preciso que, além de partir das pressões sociais, o sistema linguístico esteja apto a absorvê-lo”1, de acordo com a Dra. Nelly Medeiro de Carvalho, professora da UFPE. Ou seja, ele precisa seguir os padrões gerais do idioma, pois a língua, por meio do conjunto de seu vocabulário que a liga ao mundo exterior, reflete a cultura de toda uma sociedade, que a emprega como meio de expressão, para obter a comunicação.
Do primeiro tipo, aquele que emprega as possibilidades do idioma, temos, por exemplo, o utilíssimo verbo coisar! Que nunca “coisou” algum negócio? Temos aqui a criação de um verbo pela junção do sufixo ‘ar’ ao substantivo ‘coisa’. É o que o Tom Zé faz na canção “Esteticar (estética do plágio)” com os termos ‘blacktie’ e ‘smoking’ (estrangeirismos):
(…) Se segura milord aí que o mulato baião
(tá se blacktaiando)
Smoka-se todo na estética do arrastão(…)
Ou os jornalistas que vêm acompanhando há algum tempo os casos de corrupção em diversos escalões do governo, quando cunharam os termos ‘mensalão’ (pagamento mensal, mensal-, de grande valor, –ão) e ‘valerioduto’ (Marcos Valério era a pessoa que levava o dinheiro + duto, termo que indica via por onde algo passa). Na mesma linha, aproveitando termos já existente no idioma, temos o ‘namorido’, para denominar o rapaz que se encontra num relacionamento semelhante ao casamento, palavra criada por aglutinação dos termos namorado + marido.
Com a chegada das estações mais quentes, muitas pessoas já planejam a compra de um ar-condicionado, certo? Na verdade, o termo completo é aparelho de ar condicionado2, mas já fizemos a elipse do termo aparelho, como já havia acontecido com oveículo/carro automóvel: ou usamos veículo, carro ou automóvel, mas esse último termo era apenas o adjetivo que caracterizava o modo como o veículo se movimentava (por si mesmo, sem tração animal).
Os termos novos são também resultado da criatividade humana nos outros campos. Os neologismos criados no setor artístico, científico e tecnológico têm o objetivo de oferecer novos conceitos dentro dessas áreas e acompanhar a evolução humana. A informática talvez seja, atualmente, uma das maiores fornecedoras de termos, pois sempre precisaremos fazer um ‘backup’ (usamos o termo estrangeiro mesmo), então, para diminuir o risco de perdermos informações importantes, devemosbecapear(!!!) os arquivos com frequência; é bom ‘zipar’ os arquivos, para ocuparem menos espaço… Assim, a partir do estrangeirismo, que passou a neologismo, ainda fizemos mais um ‘abrasileiramento’ do termo e ele virou verbo!
Já o processo de dicionarização de um neologismo reflete a continuidade de seu uso na comunidade linguística, a sua aceitação. Depois de algum tempo tendo seu uso registrado pelos dicionaristas, comprovada a existência, permanência e uso, a Academia Brasileira de Letras acaba incorporando o vocábulo no VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) e eis que oficialmente temos mais uma palavra no idioma.
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