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7 de fevereiro de 2017

FUVEST - COMENTÁRIO DE ALGUNS PROFESSORES - VALE PARA 2018

A prova de português é feita por todos os vestibulandos, independente da carreira escolhida. Segundo a escritora Noemi Jaffe, que já foi professora de língua portuguesa do ensino médio e ministra oficinas de escrita, a redação é um critério de aprovação para todos os cursos, de exatas, humanas ou biológicas, porque saber se expressar é uma competência essencial para todas as áreas do conhecimento, já que a habilidade de escrever um texto coeso e bem fundamentado está ligada à organização do pensamento.
Segundo o Manual da Fuvest 2017, o tipo de texto requisitado é uma dissertação de caráter argumentativo, “na qual se espera que o candidato, visando a sustentar um ponto de vista sobre o tema proposto ou sugerido, demonstre capacidade de mobilizar conhecimentos e opiniões”.
Essa escolha tem uma razão. É esse tipo de texto que será utilizado pelo universitário na construção e elaboração do conhecimento de uma perspectiva científica e acadêmica, diz Caroline Theml, pesquisadora e professora de redação, em entrevista ao Nexo. “As universidades querem alunos capazes de construir e sustentar uma perspectiva, de modo a contribuir para a pesquisa científica sem, ao mesmo tempo, desconsiderar o que já foi pensado dentro da área, por outros autores.”
Ainda de acordo com o manual, os textos são avaliados quanto ao “desenvolvimento do tema e organização do texto”, à “coerência dos argumentos e articulação das partes do texto” e à “correção gramatical e adequação vocabular”.
Apesar desses critérios constarem no manual, sua divulgação não ajuda muito em termos práticos para incrementar a produção de texto de um estudante. Segundo o artigo “Aspectos emocionais das dificuldades de produção de texto”, da pesquisadora e professora de redação Carolina Zuppo Abed, o mito de que escrever é um dom atrapalha o desenvolvimento da escrita nos estudantes.
Segundo a pesquisadora, especialista em formação de escritores, o ensino da escrita envolve conteúdos “plenamente ensináveis” e que requer não só “saber o que” — estar informado sobre assuntos variados para que a redação possa ter um bom conteúdo —, mas principalmente “saber como”: apresentar esse conteúdo de forma clara e organizada. No artigo, ela reforça que as habilidades específicas que uma boa redação exige são construídas por meio da prática.
Nexo ouviu duas professoras de redação e uma escritora e reuniu algumas dicas dessas profissionais para fazer uma redação melhor, para a Fuvest e para a vida:
  • Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária
  • Eliane Aparecida Ferreira é professora no curso de letras do campus de Assis da Unesp (Universidade Estadual Paulista)
  • Caroline Theml é formada em letras pela USP, pesquisa produção textual e é professora de redação do Ensino Médio

Posicionamento e originalidade

NOEMI JAFFE Não trabalhar ideias já muito exploradas, clichês, mas abordar o assunto a partir de um ponto de vista menos usual. Também é importante não ficar em cima do muro, assumir uma posição e, ao mesmo tempo, tentar ser o mais dialético possível, mostrando o outro lado, a antítese e a possibilidade de que o outro lado tenha razão.
ELIANE APARECIDA FERREIRA Depois da introdução, em que se apresenta o estado da questão, já deve vir o parágrafo da tomada de posição, em que se retoma os fragmentos [de texto dados pela prova] como base do que se defende.
CAROLINE THEML Construir um ponto de vista não consiste apenas em se posicionar de modo contrário ou favorável a respeito de uma determinada questão. É muito comum que as pessoas se limitem a essa primeira etapa argumentativa — a do posicionamento binário. Embora esse seja o ponto de partida, é preciso acrescentar uma análise própria a respeito do assunto — trata-se da tese, uma afirmação sem influência de juízo de valor que contribui para a reflexão sobre o tema.

Objetividade e clareza

NOEMI JAFFE Ser objetivo e claro, não ficar usando muitos substantivos abstratos nem fazer generalizações do tipo “é preciso melhorar a educação”, que não querem dizer nada. Usar o mínimo possível a primeira pessoa, tentando ser impessoal no tratamento gramatical.
ELIANE APARECIDA FERREIRA Optar por frases curtas. Períodos breves. Objetividade na argumentação.
CAROLINE THEML Uma forma de explicitar as relações lógicas construídas no texto com clareza argumentativa é pelo uso de conjunções. Para isso, entretanto, é preciso, também, ter um bom domínio da diversidade de conectivos à disposição. Limitar-se às formas típicas “e”, “mas”, “porque” e semelhantes é limitar também a complexidade do texto. É possível ser claro e complexo ao mesmo tempo, quando se adquire domínio da língua.

Organização do texto

NOEMI JAFFE Fazer uma proposta de resolução do problema no final do texto, com teor social. Trabalhar com poucas ideias no texto, não ampliar demais.
ELIANE APARECIDA FERREIRA A estrutura [da dissertação] é bem canônica — introdução, desenvolvimento e conclusão. Geralmente são poucas linhas, por isso ajuda pensar já em parágrafos e fazer uma estruturação equilibrada deles, dividida nesses três grandes blocos.
CAROLINE THEML A tese é apresentada logo na introdução, após a abordagem do tema, e é em defesa dela que serão construídos os argumentos nos parágrafos seguintes. Garantir a correlação entre tese e argumentos é garantir a eficácia do percurso argumentativo.

Conteúdo e vocabulário

ELIANE APARECIDA FERREIRA Uma dica preparatória importante é que é fundamental ler os editoriais dos jornais e as notícias da semana. Geralmente, os temas da redação são retirados de questões atuais: estar bem informado dá uma noção geral do que está sendo discutido.
CAROLINE THEML A construção de um argumento varia de acordo com a coletânea oferecida – é o repertório do interlocutor, com o qual é preciso dialogar e sobre o qual é preciso ter domínio. Coletâneas que oferecem textos acadêmicos (de filósofos, sociólogos, historiadores, pensadores clássicos, etc.) como referência sobre o tema favorecem a construção de argumentos de autoridade, com uso de citações, repertório conceitual e disciplinar. É o padrão que predomina nas avaliações da Fuvest, por exemplo. A escolha do vocabulário deve demonstrar não apenas repertório cultural como repertório científico-acadêmico — ela faz parte da construção do argumento. Um léxico amplo revela capacidade de diálogo e interlocução.

Descanso é essencial

Outra dica da professora Eliane Ferreira é priorizar a redação, começando por ela se possível. “É importante não ir para ela esgotado. Começar pela leitura, do tema, dos fragmentos dados para montar a argumentação”, diz.
Apesar do tempo ser curto, fazer um rascunho e passá-lo a limpo também melhora a qualidade do texto, segundo ela. “A primeira vez que a gente escreve é muito rápida e passional. Reler o rascunho rapidamente e fazer correções aumenta a chance de sucesso, é melhor do que fazer diretamente”.
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