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23 de fevereiro de 2017

TEMA DE REDAÇÃO


A Universidade Estadual Paulista – Unesp – é uma das principais universidades estaduais de São Paulo, ao lado da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e seu vestibular é um dos mais concorridos em todo o Brasil e, na coluna de hoje, analisaremos a prova de redação aplicada na seleção para este ano, realizada em dezembro de 2016.
Acreditamos ser relevante a publicação de análises de provas de produção textual de outros vestibulares, já que vários leitores são candidatos não só do Enem, mas também de outras provas, já que as universidade estaduais, por exemplo, têm autonomia para aderirem ou não ao Enem.
Além disso, pensamos ser produtivo conhecer outras propostas de redação, já que o molde e o “estilo” das provas de produção de textos da Unesp, USP e da UNICAMP, por exemplo, são muito diferentes do molde e do “estilo” da prova de redação do Enem.
Diferentemente deste último, cujos temas e coletâneas de textos motivadores abordam questões sociais, relacionadas ao contexto histórico, político e cultural brasileiro, a fama da prova de redação da Unesp é de ser uma verdadeira caixinha de surpresas. Apesar dos sempre presentes palpites, a Fundação Vunesp (fundação que prepara, organiza e aplica o vestibular da Unesp) normalmente surpreende os candidatos com temas considerados filosóficos, digamos assim.
O tema da redação do vestibular da Unesp 2017 foi “A riqueza de poucos beneficia a sociedade inteira?” e foi considerado como difícil pelos candidatos ouvidos na ocasião da aplicação, em dezembro de 2016.
A coletânea de textos (que, no caso da banca de correção da Unesp, não é considerada motivadora, ou seja, o candidato deve mostrar, em sua dissertação, que leu os textos e que os relacionou na sua produção textual) foi composta por três textos.
primeiro texto, de Thomas Piketty, economista francês, questiona o assunto da distribuição de renda e pergunta se Karl Marx estava certo ao afirmar que a acumulação do capital privado gera uma maior concentração de poder e de renda nas mãos de poucos ou se Simon Kuznets (economista russo) estava correto quando dizia que as forças equilibradoras do crescimento e do avanço tecnológico levam, espontaneamente, a uma distribuição de renda mais harmoniosa.
segundo texto, por sua vez, é de autoria de Zygmunt Bauman, sociólogo polonês falecido em janeiro deste ano, e data de 2015, ou seja, trata-se de um texto recente. Segundo Bauman, estudos comprovam que é cada vez maior a distância entre os que estão no topo da hierarquia econômica e os que estão na base, como se o topo da pirâmide estivesse muito longe da base. O autor ainda chama a atenção para as possíveis consequências desta distribuição desigual de renda e de riqueza e assim ele questiona a economia de livre mercado tão marcante no neoliberalismo.
terceiro e último texto da coletânea da proposta de redação da Unesp 2017 é de Hélio Schwartsman, filósofo e jornalista brasileiro, colunista do jornal Folha de São Paulo. O autor deste texto critica a colocação da culpa de todos os males econômicos na propriedade privada e na economia de mercado; ele admite que estas favorecem a concentração de renda entre poucos, mas afirma que, por outro lado, tornam os bens mais acessíveis devido ao aprimoramento dos processos produtivos.
Após a leitura da coletânea de textos, concluímos que o primeiro excerto introduz o debate proposto pelo tema; já o segundo texto responde à pergunta do tema de forma negativa e o terceiro texto responde de forma positiva. Deste modo, cabia ao candidato responder a questão proposta pelo tema baseado no primeiro texto (introdutório) e depois no segundo ou no terceiro, dependendo de sua posição e de seu ponto de vista.
O candidato que optou por responder que a riqueza de poucos não beneficia toda a sociedade deveria basear-se nos dados que comprovam que a desigualdade de renda só cresce e que o abismo entre os mais ricos e os mais pobres só aumentam e, em seguida, deveria abordar as causas (capitalismo e neoliberalismo, além de uma sociedade de castas às cegas) e as consequência deste fenômeno: disparidades em relação à moradia, educação, acesso à saúde, saneamento básico, bens de consumo, alimentação, lazer etc.
Por outro lado, o candidato que optou por responder que a riqueza de poucos beneficia sim toda a sociedade poderia argumentar a favor dos regimes capitalistas e neoliberais, comparando a situação dos principais países ocidentais antes e depois da Revolução Industrial, do Fordismo até os dias atuais, abordando também as possíveis consequências deste fenômeno.
Independentemente da posição escolhida, o candidato deveria ter um conhecimento adequado de História, Geografia, Economia e Política a fim de defender o seu ponto de vista sem extremismos. Além disso, diferentemente da proposta de redação do Enem, não há nenhuma restrição em relação à sociedade, ou seja, o tema não aborda a sociedade brasileira e sim a sociedade mundial. Porém, não havia nada que impedisse que o candidato escrevesse focando no Brasil e nos exemplos nacionais.
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