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5 de janeiro de 2015

Tema de redação

É válido simplificar a linguagem de um clássico?

Em meados de 2014, uma polêmica agitou os meios literários e educacionais brasileiros: uma escritora decidiu publicar, com o apoio de lei de incentivo do Ministério da Cultura, uma adaptação simplificada do conto "O alienista", de Machado de Assis. Para justificar seu projeto, a escritora alegou que a dificuldade da linguagem do texto original afasta os jovens da leitura desse autor - um dos maiores escritores brasileiros. Entre educadores, críticos literários e jornalistas, as opiniões se dividiram: houve quem concordasse com ela e aprovasse a iniciativa; houve quem tachasse o projeto de equivocado e até de criminoso. Nos textos que acompanham a proposta de redação deste mês, apresentamos algumas das opiniões em conflito, para você formar uma ideia do debate. A partir delas e de seus próprios conhecimentos e opiniões, redija uma dissertação expondo o seu ponto de vista sobre esse tipo de adaptação de obras literárias. Você é contra ou a favor? Por quê?
  • Reprodução
    Ilustração de "O alienista", em versão adaptada para os quadrinhos, de autoria de Fábio Moon e Gabriel Bá

Palavra da adaptadora

"Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis", diz a escritora Patrícia Secco. "Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso." Ela simplifica mesmo: Patrícia lançará uma versão de "O Alienista", obra de Machado publicada em 1882, em que as frases estão mais diretas e palavras são trocadas por sinônimos mais comuns (um "sagacidade" virou "esperteza", por exemplo". A mudança não fere o estilo do escritor mais celebrado do Brasil, diz Patrícia. "A ideia não é mudar o que ele disse, só tornar mais fácil."

A função da escola

"É absurdo imaginar que a função da escola seja facilitar qualquer coisa, em vez de levar a trabalhar com as dificuldades da vida, da crítica e do conhecimento", comenta o professor da USP Alcides Villaça. Ele se diz indignado: "Apresentar como sendo de Machado de Assis uma mutilação bisonha de seu texto não devia dar cadeia?".

Perda da essência

Infelizmente, Patrícia Secco falseia Machado de Assis. Além de lhe desfigurar o estilo, ela o emburrece. Sua adaptação é um retrocesso, que sacrifica até os avanços linguísticos do estilo machadiano, já ousadamente próximo da linguagem coloquial, numa antecipação das vanguardas do modernismo que só iriam se consolidar no Brasil quase meio século depois. A autora esqueceu-se de que Machado, assim como Borges, Beckett, Graciliano, não dá para ser adaptado em prosa sem que se perca a essência de sua arte. A obra machadiana é basicamente linguagem. Em seus romances, não há enredos rocambolescos nem profusão de personagens, como há em Homero, Cervantes e nos clássicos românticos. Mesmo “O Alienista”, talvez o enredo mais movimentado de toda a sua obra, depende substancialmente da linguagem, pois é nela que moram a argúcia e a ironia do conto.
[José Maria e Silva, Revista Bula]

Uma chance para os clássicos

Acreditar que as versões simplificadas de Machado de Assis emburrecerão a população é errôneo. Quem defende esse argumento parte do pressuposto de que vivemos num país de leitores ávidos de Machado de Assis que, por pura preguiça, trocarão a versão original pela adaptação e deixarão de enriquecer seu vocabulário. Nada mais distante da realidade. A grande maioria dos alunos foge da leitura obrigatória depois de esbarrar na primeira palavra difícil e recorre a resumos (ou à cola) para acertar a meia dúzia de questões dedicadas a Machado nas provas escolares. Muitos jamais dão outra chance aos clássicos da literatura. Uma versão simplificada poderia diminuir o choque e prepará-los para descobrir a obra original mais tarde, quando estiverem prontos.
[Danilo Venticinque, Época]

Observações

Seu texto deve ser escrito na norma culta da língua portuguesa;
Deve ter uma estrutura dissertativa-argumentativa;
Não deve estar redigido sob a forma de poema (versos) ou narração;
A redação deve ter no mínimo 25 e no máximo 30 linhas escritas;
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