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23 de outubro de 2016

ACENTUAÇÃO - INTERESSANTE


A língua portuguesa é predominantemente paroxítona, isto é, a maioria das palavras possui a penúltima sílaba mais forte. Podemos fazer um teste. Observe o nome dos objetos que estão à sua volta: mesa, cadeira, vaso, toalha, teto, parede, armário, estante, piso, janela, porta, computador… Faça também o teste num pequeno texto: o mesmo se verificará.
Isso se dá porque os vocábulos proparoxítonos, no processo de evolução do Latim ao Português, foram transformados quase todos em paroxítonos, como nos exemplos abaixo:
  • PEDUCULU > PIOLHO
  • POLYPU > POLVO
  • LITTERA > LETRA
  • LEPORE > LEBRE
  • VIRIDE > VERDE
Essa tendência continua, por exemplo, na variante linguística não culta e, notoriamente, no chamado ‘falar caipira’, em que xícara vira xicraárvore vira arve e córrego vira corgo (e se forem pequenos, viram xicrinha, arvinha e corguinho!).
E, por causa dessa tendência de “facilitação’ da pronúncia e do repertório de palavras que vamos internalizando naturalmente no decorrer da vida, quando nos deparamos com uma palavra desconhecida temos a tendência de pronunciá-la como se fosse uma paroxítona.
Esse processo e tendência são a justificativa para a regra de acentuação mais fácil de ser memorizada: ‘Todas as proparoxítonas são acentuadas’. Realmente não é difícil se lembrar dessa frase, mas ela precisa ser justificada historicamente para fazer sentido, compreendida e aplicada, uma vez que, se nos esquecermos do acento, podemos incorrer em erro, de acordo com a norma culta, ou podemos obter outra palavra, com sentido diferente!
Observe:
  • dico (substantivo) / medico (1ª pess. sing. do verbo ‘medicar’ no Presente do Indicativo)
  • brica (substantivo) / fabrica (1ª pess. sing. do verbo ‘fabricar’ no Presente do Indicativo)
  • sico (substantivo) / musico (1ª pess. sing. do verbo ‘musicar’ no Presente do Indicativo)
  • Último (adjetivo) / ultimo (1ª pess. sing. do verbo ‘ultimar’ no Presente do Indicativo)

Mas, se a tendência é facilitar e “encurtar” as proparoxítonas, por que ainda existem estas últimas?
Bem, é que a maior parte das proparoxítonas que compõem a língua portuguesa é resultado de empréstimo literário do Latim, que ocorreu maciçamente, por meio da Igreja ou a partir das produções do Renascimento, ou seja, por influência erudita: prédica, cúpula, cálice, alvíssaras, pólipo, idólatra, ípsilon, tômbola, zíngaro.
Alguns compositores lançaram mão dessa sonoridade particular das proparoxítonas e produziram músicas bastante interessantes, como “Construção”, de Chico Buarque e a humorística “O drama de Angélica”, da dupla Alvarenga e Ranchinho, que segue abaixo, para descontrair a tensão da proximidade dos exames:
O Drama de Angélica
(…)Amei Angélica mulher anêmica
De cores pálidas e gestos tímidos (…)
Em noite frígida fomos ao Lírico
Ouvir o músico pianista célebre
Soprava o zéfiro, ventinho úmido
Então Angélica ficou asmática
Fomos ao médico de muita clínica
Com muita prática e preço módico
Depois do inquérito descobre o clínico
O mal atávico, mal sifilítico (…)
Morreu Angélica de um modo lúgubre
Moléstia crônica levou-a ao túmulo (…)
Fiz-lhe um sarcófago assaz artístico
Todo de mármore da cor do ébano
E sobre o túmulo uma estatística
Coisa metódica como Os Lusíadas
E numa lápide de paralelepípedo
Pus esse dístico terno e simbólico
“Cá jaz Angélica
Moça hiperbólica
Beleza Helênica
Morreu de cólica!”
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